A RECONSTRUÇÃO DO AMOR PELO AMOR

Tenho vários exemplares de Drácula, do Bram Stoker. Versões em inglês, espanhol, francês. Em Buenos Aires encontrei uma edição nova, belíssima.

A história sempre me encantou: o vazio que não pode ser preenchido por que quem deveria fazê-lo não o fez, mas sobre o qual se pode construir em cima. A questão do olhar, que me toca tanto. O olhar que não vê, o olhar que reflete, o olhar que vê mas não enxerga, o olhar que exerga o que não vê, vê além.

Atendendo os pedidos, segue o artigo do psiquiátra Mário Luíz Quilici, sobre a interpretação psiquica do filme Drácula, do Coppola, baseado no livro.


DRÁCULA DE BRAM STOKER


Mário Quilici


“Na dor psíquica, é impossível tanto odiar quanto amar, é impossível gozar de forma masoquista, é impossível pensar. Existe apenas a sensação de que algo esvaziou o eu dele mesmo e o deixa alienado, transformado numa figura que não pode ser representada” (André Green)



O ÚLTIMO LANÇAMENTO DE FILME SOBRE VAMPIROS
Dessa vez, vamos falar sobre vampiros. Acho que o assunto é tão fascinante, que tem um grande número de aficionados que lotam as salas de cinema por ocasião de algum lançamento. Creio que ha bem pouco tempo atrás foi lançado no Brasil, o filme “VAMPIRO 2000”. Como eu já estava querendo escrever sobre o assunto, então, peguei o filme para colher material que resultasse numa interpretação psicológica legal. O filme de fato, é uma grande porcaria. Todos os acontecimentos são absolutamente previsíveis e sem nenhuma graça além, de ser um filme que a meu ver, tende para o preconceito.

OS VAMPIROS
O que são vampiros e como surgiram? Os vampiros surgiram em lendas populares originadas na Eslováquia e na Hungria, por volta de 1700. Segundo a Enciclopédia Britânica, provavelmente essas lendas nasciam entre pessoas supersticiosas e de pouca cultura, devido à percepção de que os moribundos enfraqueciam com a perda de sangue e, assim, devem ter concluído que beber sangue restaurava as forças ou, até mesmo, que o sangue dos vivos poderia ressuscitar os mortos.

Segundo a religião dominante, na Igreja Ortodoxa Oriental, as pessoas que morriam excomungadas ou, sob maldição, eram transformadas em mortos-vivos (chamados de Moroi), e penariam até serem perdoadas pela Igreja. Diziam ainda as lendas romenas, que certas pessoas, como as crianças ilegítimas ou as não-batizadas, as bruxas e o sétimo filho de um sétimo filho, estavam condenadas aserem vampiros.

Outros estudos sobre o assunto dizem que a origem dos vampiros estaria diretamente ligada ao mito judaico-cristão de Caim e Abel. Diz-se que Caim, após a morte de Abel, foi amaldiçoado por Deus. A maldição não veio diretamente de Deus (pelo menos não ela toda), mas sim dos anjos que vieram a Caim exigir que ele pedisse perdão a Deus. Orgulhoso, e certo de suas convicções, Caim preferiu sofrer as punições conferidas pelos anjos a prostrar-se perante Ele. O resultado disso foram maldições que todo vampiro carrega: horror ao fogo, à luz, avida eterna e a solidão que vem com ela.

Estudos realizados no mundo inteiro, provam à existência do "vampirismo" em diversas sociedades. O ato de beber sangue de recém nascidos é muito comum em tribos africanas, como forma de rejuvenescimento físico e espiritual. Mas, há uma forma de vampirismo que podemos observar no dia a dia que é o vampirismo espiritual, alimentado pela inveja e pela cobiça. As crendices populares se referem a ele como “olho gordo” ou ainda, “mal olhado”. Para esse tipo de vampirismo, segundo muitas pessoas, há diversas simpatias que podem afastá-los, como o banho de sal grosso e o banho de alho.

Então, de acordo com as lendas e mitos, a definição para os vampiros seria: almas penadas que vagueiam pela terra. Procuram a noite porque a luminosidade lhes denuncia a transparência e, por serem almas, não se refletem no espelho, pois este acusaria a incorporalidade. Alimentam-se de sangue porque sangue é vida e então, através dele, materializam-se. A vida para eles é pura aparência, já que eles não existem. Como sombras, mortos-vivos, que são, além de serem frios como gelo, eles podem transformar-se em qualquer coisa, eles têm o poder do mimetismo, digamos assim.

O DRÁCULA DE BRAM STOKER
Um dos mais famosos vampiros do cinema foi criado pelo escritor Bram Stoker, em meados do século XIX. Para escrever o best seller "Drácula", o escritor inglês se inspirou no nobre romeno "Wlad Teppes IV", que se tornou um dos maiores mitos da sociedade medieval, devido à sua extrema crueldade. Dizem que Wlad tinha prazer em empalar pessoas vivas, principalmente quando essas eram inimigas da Igreja ou eram serviçais desobedientes e preguiçosos. Sua mente, apesar de doentia, abrigava grande inteligência e senso de justiça. O próprio Bram Stoker escreveu uma citação, defendendo esse homem de personalidade dúbia: "...Não devemos julgar um homem pelos seus atos, e sim à sociedade em que ele vive".

Wlad era um homem amargurado, que ficou psicótico, depois de perder todos aqueles a quem amava. O termo vampiro foi atribuído a esse nobre romeno, pelo costume de beber o sangue dos Mouros que ele matava nas Cruzadas Medievais. Já o pseudônimo “Drácula”, que provém da palavra “Dhracullea”, deve-se a um título concedido à seus antepassados que combateram os infiéis e os inimigos da cristandade, significando "Ordem do Dragão".

O FILME DE COPPOLLA
A história do filme começa no Castelo do Drácula, na Transilvânia, Romênia, em 1462, onde o Rei Wlad Teppes IV, da Ordem do Dragão, vai partir com seu exército para combater os Turcos em Constantinopla. Wlad Teppes IV é um dos Reis aliados às Cruzadas, ou seja, exércitos cristãos que combatiam povos não cristãos, principalmente os Mouros, em nome da Igreja Católica.

O Rei é casado com Elizabetha, são jovens e estão apaixonados. A separação é penosa. A batalha que Wlad Tappes vai enfrentar é considerada arriscada, mas ele consegue vencê-la. Então, em seu retorno para casa onde desejava ver sua amada esposa, ele descobre que ela havia se suicidado. Os Turcos, como vingança, haviam enviado a ela uma mensagem comunicando a morte de seu amado marido. Em desespero, Elizabetha se suicida.

Quando Wlad chega, o corpo da esposa está diante do altar da capela do castelo. Um dos bispos anuncia ao desconsolado rei que sua esposa não poderá receber a extrema unção, porque se suicidou e assim, não têm direito ao reino dos céus e, portanto, à vida eterna. Ela vai vagar nas trevas. Wlad, irado, espeta uma espada no centro de uma cruz que começa a sangrar abundantemente. Desse sangue, ele toma uma taça e bebe e torna-se então, um ser das trevas, um morto vivo. O tempo passa e em seguida aparecem cenas de Londres em 1867.

Jonathan Harker, um jovem corretor, aceita a missão de ir a Transilvânia para vender propriedades londrinas ao Drácula. Nas negociações com o Drácula, Jonathan deixa à mostra uma foto de Mina, sua noiva, em quem o Drácula reconhece sua esposa, Elizabetha. Drácula sente que está na trilha do destino, e então, segue em direção de sua amada Elizabetha com quem poderá se reunir de novo. Passam-se muitos outros fatos que não dá para resumir aqui, mas Drácula finalmente consegue seduzir e transformar Mina. Descoberto pelos seus perseguidores, Drácula têm que voltar para seu castelo na Transilvânia e induz Mina a encontra-lo lá. A luta de seu marido e outros colaboradores como o Dr. Van Helsink, lendário caçador de vampiros, faz com que Drácula seja atingido no coração. Mais à frente discutiremos esse final.

Muitas produções cinematográficas foram feitas para contar a história desse nobre romeno, vítima de sua própria maldição. Nos cinemas, Drácula sempre absorveu uma aparência assustadora e poucos foram os filmes que conseguiram humanizar o famoso personagem. Coppolla dá um acabamento maravilhoso ao seu "Drácula, De Bram Stoker".

O ator Gary Oldman, encarna um Drácula extremamente romântico e sedutor. Nesse filme, o diretor Francis Ford Coppolla se manteve fiel ao livro de Bram Stoker, dando uma breve introdução que situa o espectador na época do Rei Wlad Teppes IV, para explicar a maldição à que ele foi condenado.

FALANDO UM POUCO DE NARCISISMO
Tenho que falar brevemente sobre a questão narcísica para não incorrer no alongamento desnecessário do texto e, para que possamos compreender a análise que vou fazer. Então, vamos tratar diretamente do narcisismo patológico (narcisismo doente) que é o que nos interessa para compreender o mito de Drácula.

Quando nascem os bebês, eles já têm uma personalidade biológica. Existem valores nesse indivíduo ainda que sejam rudimentares. O bebê vem sem nenhum certificado ou manual de instrução. Isso se faz para produtos em série, mas não existe essa coisa de bebê em série. Cada bebê é único justamente por causa de seus valores inatos. Uma vez tendo valores, essa criança já tem uma expectativa da mãe que quer encontrar.

É na interação com a mãe ou de quem cuida da criança que vai surgir a sanidade ou a doença, e também, o bebê vai ganhar alguma representação de si mesmo. Isso pode ocorrer de inúmeras formas, mas é basicamente a percepção pela criança de que a mãe tem vivo interesse por seu bebê, que reconhece suas qualidades, peculiaridades e suas iniciativas, que vai ajudá-la a criar as representações de si mesmo. Quando a mãe é narcísica, doente ou deprimiu por algum desgosto, ela afasta-se afetivamente da criança, transforma-se em uma mãe automática e não em uma mãe que tem contato pelo coração. É uma mudança brutal, uma interrupção brusca. A criança que se sentiu amada num outro momento, sente essa mudança como uma verdadeira catástrofe, pois, o bebê não tem como explicar o que aconteceu e então, como ele é o centro de seu próprio universo, acredita que foi alguma atitude sua que fez com que a mãe ficasse daquele jeito.

Esse afastamento afetivo da mãe abre uma ferida no psiquismo da criança, uma ferida que sangra constantemente, copiosamente. Mas, a criança vai tentar a qualquer custo “reparar” seu erro (ou aquilo que imagina ser sua culpa), insistentemente e incansavelmente. Ela luta para não perder o amor da mãe e a própria mãe, ela usa de todos os recursos: agitação, insônia, mutismo, terrores noturnos, enurese noturna enfim, coloca uma infinidade de defesas em ação para tentar recuperar o contato efetivo com a mãe. A cada fracasso, a ferida se abre mais, sangra mais e dói mais, então, a criança depois de tanto lutar e nada conseguir, guarda dentro de si a certeza de sua impotência em conseguir qualquer coisa e, além disso, não consegue construir nenhuma auto-estima. Com isso, acha-se feia, repelente, tem vergonha de si mesma e conseqüentemente fica dependente da mãe ou de outras pessoas.

O narcisismo patológico consiste de um abandono desse eu original e que machucado, tornou-se impotente, rejeitado e monstruoso, que será substituído por um ideal. O ideal aqui é uma alucinação. Como a criança imagina que o adulto não tem nenhuma dificuldade em viver e lidar com as dificuldades, sentimentos e problemas de forma que não sofrem frustrações, decepções e raivas, e nem sofrem por causa dos desejos, a criança substitui seu eu destruído pelos pais idealizados, um ego ideal, um delírio. Passa a viver de acordo com essas imagens. É uma espécie de incubo, introjeto, uma possessão. Vive um nada, um vazio porque quando lhe falta o ego real, falta-lhe a sensação de que é real, falta-lhe a vida. É então um morto vivo.

Mas, como todo mecanismo dessa natureza é um fracasso a partir de sua realização sob o eu ideal, estará sempre presente o eu rejeitado, sujo e impotente do indivíduo: o monstro que o individuo tenta esconder com atitudes super-compensatórias e megalomaníacas mas também de submissão e humilhação.

VAMPIROS EXISTEM?
Não. Na verdade, como todos os outros mitos existentes entre os seres humanos, o mito do vampiro serve para expressar uma percepção que os homens têm a respeito de algumas realidades à sua volta.

O que é um mito? Um mito é um símbolo formado a partir de crenças, costumes, leis, obras de arte, conhecimento cientifico, esportes, enfim, todas as atividades que formam a identidade cultural. Os mitos são formados pela Consciência Coletiva. Dessa forma, os mitos descrevem padrões de comportamento humano e se estabelecem como um marco referencial para a consciência.

Na verdade, sabemos que os homens sempre usaram os mitos para delinear padrões que permitam compreender a caminhada existencial. Como diz Juanito de Souza Brandão, os pais ensinam seus filhos como é a vida, relatando-lhes as experiências pelas quais passaram. Os mitos têm a mesma função num sentido mais amplo.

Os gregos foram grandes mestres nessa arte. Como as ciências da mente só se desenvolveram com maior força, muito recentemente, as culturas construíam seus próprios mitos para explicar as vicissitudes da alma e do psiquismo. Drácula é um mito, e é, na minha opinião, um mito que representa melhor o conceito de narcisismo patológico do que o mito Grego de Narciso, contado por Ovídio, e que motivou Freud a usar o termo para denominar uma importante patologia do desenvolvimento.

O SIMBOLISMO DE DRÁCULA
O Rei Wlad ao voltar da batalha vitorioso, encontra sua Elizabetha morta. A Igreja recusava-se a abençoá-la para que ele, de acordo com suas crenças pudesse reencontrá-la na vida eterna. Isso lhe possibilitaria continuar a sobreviver à morte dela porque teria a esperança de que poderia resgatá-la na eternidade. Mas, a Igreja (a mãe) recusa-se. Então, ele cheio de ódio, enfia sua espada no coração de uma cruz. A espada que Wlad enfia no coração da cruz refere-se à ferida narcísica, que se fez em seu coração e que sangra abundante e ininterruptamente. É o prenúncio da dor eterna. É a sua dor por perder a alegria da mãe de forma abrupta e não ter podido fazer nada, e de não ter nenhuma esperança de regata-la. É a dor narcísica, é a impotência eterna, o vazio.

Como todo indivíduo com doença narcísica, Wlad identificou-se com um outro ideal: Deus. O Deus que ele concebera em sua experiência. Ele fora o cavalheiro de Deus e em nome Dele, havia matado, empalado e esquartejado centenas de pessoas. Seu Deus era indiferente ao seu sofrimento. Seu Deus havia exigido que matasse todos aqueles que pensassem de forma diferente, como os Mouros que tinham uma religião não cristã. Ele servira a Deus e agora sentiasse injustiçado, pois seu Deus deixara que sua Elizabetha não só morresse, como também a condenou às trevas. Era um Deus frio, maldoso e calculista, que só desejava receber e nunca retribuir ou perdoar. Esse foi o ideal de ego que Wlad colocou no lugar de seu verdadeiro eu: um Deus vampiro, aproveitador e egoísta.

Mas, como foi dito antes, todo narcisista mantém sob esse ideal a ferida doendo e lembrando quem é ele. É como se por um lado ele fosse Deus e por outro lembrasse sempre que ser Deus originou-se do fato de não ser nada. Assim, Drácula impotente e sem auto-estima vive da sina de ter que ingerir sangue alheio para existir. Sangue é a vida, e ele precisa da vida do outro para poder continuar já que renunciou à sua própria vida. É um impotente que não pode criar seu próprio sangue (sua própria forma de ser, seus recursos e realizações), e assim, suga suas vítimas a exaustão, até que fiquem vazias da vida. Não há nenhum remorso nisso porque não há consciência.

Como todo indivíduo impotente e sem auto-estima, Wlad é invejoso e assim, faz de tudo para trazer o outro para seu próprio inferno, ou seja, uma vez que uma vítima foi mordida pelo vampiro, ela se transforma em vampiro também, e terá uma vida tão miserável quanto ele. Não é por acaso que o mito do vampiro surge, segundo alguns autores, com Caim, que é o mito antigo que trata da inveja humana.

A inveja nasce do sentimento de impotência que não permite ao indivíduo acreditar que pode conseguir o que o outro consegue. Para o invejoso, todos têm que ficar na mesma desgraça da qual nunca se pode escapar. Qualquer movimento no sentido de crescimento, faz com que o invejoso destrua, obstrua, massacre. Mas, ainda aqui, há uma questão: o invejoso tem medo de perder, por isso quer deixar o invejado mutilado.

Ainda aqui, há a escravização ao narciso porque suas vítimas, os novos vampiros, são seus servos fiéis e incorruptíveis. Essa é outra questão do narcisista: “Ame a mim, só a mim”. Quem convive com o narciso não pode ser diferente dele.

No filme de Coppolla, há uma cena importante: a sombra de Drácula age, revelando seus pensamentos ávidos e agressivos enquanto seu comportamento é completamente diferente, suave e sorridente. É a questão do narcísico que, em função de funcionamento pelo ideal, evita encontrar sua sombra, a ferida. Guarda na sua sombra, seu “lado negro”, que sempre acaba por revela-lo. Segundo Jung, toda sombra é o lado ruim do indivíduo com seus desejos desaprovados pelo próprio ideal.

A imagem que não se reflete no espelho é a ausência de um eu. No narcísico, pode-se ver tudo e todos, menos a ele. Isso acontece porque é o olhar da mãe que reflete as percepções de si mesmo, é a mãe que transforma o subjetivo em objetivo. Ela, ao ver, faz com que o indivíduo exista e então, ele passa a ter consistência. No caso do narciso, a mãe é o espelho que não refletiu. Se ela, a mãe, não viu, ele não pode construir-se. Transforma-se em morto-vivo, vampiro que quer se ver no olhar do outro, por isso, é que o vampiro só é refletido pelo olhar. Ele renunciou a si mesmo no momento de sua maior dor, a dor de saber-se incompetente para conquistar o outro.

Aos vampiros é atribuído o poder de comandar animais inferiores, habitualmente os mais nojentos e também os mais ferozes. Num dado momento do filme de Coppolla, quando Drácula acaba de “transformar” Mina, os homens que estão em seu encalço entram no quarto onde está com Mina, e ele se transforma em monstro, e ao ser ameaçado, se transforma num amontoado de ratos. Isso nada mais significa que a identificação com coisas ruins e nojentas que ele sente fazerem parte dele e que ele tem que controlar durante todo o tempo. São percepções reais que a criança teve sobre si mesma quando tentou encantar e não conseguiu.

Essas transformações falam também do mimetismo, pois o narcisista, é aquele que privado de seu próprio eu, usa o mimetismo (transformar-se em) para se transformar no ideal. Como ele não pode identificar-se com nada bom (porque a ferida está sempre sangrando), fica com o que de ruim pode lhe caber. Os animais ferozes como os lobos, refletem o ódio não expresso, mas que vive insistente dentro deles.

Os vampiros temem a cruz e afastam-se aterrorizados diante dela, mas isso nada tem a ver com o religioso A cruz é o símbolo da humanidade; uma figura humana com os braços estendidos. A cruz é também o símbolo da união dos opostos, do masculino e do feminino, numa totalidade única que gera a vida. Sendo assim, é a marca do que ele não conseguiu: a união com a mãe (ou sua substituta Elizabetha). Vampiro é infértil. A cruz expressa a vida que lhe é inerente, é isso que faz o vampiro retroagir diante da cruz, a visão da vida que ele perdeu. Todo narcisista retroage diante daqueles que demonstram ter a vida que eles não conseguiram ter.

A luz é um dos elementos que mata o vampiro. Luz significa conhecimento, visão, e ele não quer ver para não encontrar a dor novamente. A luz faz o corpo do vampiro pegar fogo porque é a claridade do espírito e a possibilidade de ver é que vai trazer à tona todos os ódios (fogo que queima o corpo) e medos (o ódio que moí a alma e que a transforma em cinzas) entalados na garganta há séculos.

Então, no Drácula de Bram Stoker, Wlad ao reconhecer no porta-retratos de Jonathan Harker o rosto de sua Elizabetha que agora é Mina, noiva de Harker, ele finalmente vê a possibilidade de reunir-se à mãe, reencontrá-la, resgatar-se através dela. Ele parte para Inglaterra em busca de Mina. Toda obsessão é resgatar o vínculo perdido e, por conseqüência, a vida que o eu perdeu. É isso que todo o narcísico faz. Negar a dor que se sofreu e da qual quase se morreu e que, por assim dizer, transformou-o num morto-vivo, mas, no fundo, como todo ser vivo, tem a esperança de resgatar a vida.

Como todo o narcisista, Drácula não aceita a recusa. Seduz, induz, hipnotiza e faz encantamentos. Wlad, através de inúmeras seduções e demonstrações de carinho, consegue conquistar Mina levando-a para seu lado e fazendo a transformação dela numa das criaturas do mundo dele. Assim é com o narcisista. Toda diferença é mutilada, toda mudança ou novidade aspirada pelas pessoas próximas inquieta o narcisista e então, ele rejeita mudanças e opiniões que possam fazer com que os seus sejam diferentes deles. Nem o objeto de amor é poupado já que a voracidade é intensa.

Os caçadores do vampiro, no filme, descobrem que ele está no Mosteiro de Carpax e então, vão até lá, e destroem seus caixões cheios de terra. Sem a terra Drácula fica enfraquecido, pois, precisa da terra natal para ganhar forças. A terra é fecunda, e assim, simbolicamente representa a mãe. Ele está atado à mãe da infância e por isso a terra é velha, podre e infértil. Não pode ver-se livre dela, tem sempre que voltar para ela. A terra velha é o estar estacionado num determinado ponto ou período, sem produzir, germinar.

Drácula é estimulado a voltar à terra natal. No caminho de volta a Transilvânia, é surpreendido por aqueles que querem salvar Mina, agora, esposa de Harker. Depois de muita luta e quando a luz do sol se vai, ele sai de seu caixão (útero) onde descansava na terra podre e é surpreendido: recebe uma espada no coração.

A outra coisa que mata um vampiro é uma estaca no coração, ou seja, o ato que desperta a lembrança (a conscientização) da ferida narcísica que matou o eu. A recordação do trauma. O coração é o símbolo das emoções humanas desde os tempos imemoriais. A estaca no coração (a dor), resgata o indivíduo para a condição humana.

Drácula é sempre mal visto e perseguido por ser pernicioso. Essa é a dor maior porque a rejeição constante está dentro dele: a paranóia despertada por seu saber inconsciente de que é uma coisa má. Mesmo com o ideal operando, a ferida está lá, sangrando durante todo o tempo, por isso, desenvolve tantos mecanismos de fuga, domínio e de sedução em relação ao outro.

Mina tomada mentalmente pelas necessidades do vampiro acredita amá-lo. Contra a vontade de todos os seus amigos e do marido, leva-o com o peito ferido e sangrando para dentro da capela, então, se restaura o momento inicial do filme. Drácula agora, transformado num monstro feio, disforme e pegajoso, já que a faca em seu coração o transporta para o momento do trauma e o faz de novo humano com a idéia de seu próprio ego que é um ego corporal (isso quer dizer, damos ao nosso próprio corpo a imagem que temos dele em nossa mente), olha Mina com toda a dor que o contato com a ferida narcísica pode causar.

Ela então, amorosamente, beija sua boca num rosto monstruoso, com carinho e sinceridade. É como se essa ação da pessoa amada com a aceitação da condição de feiúra, monstruosidade e valor do incômodo (ou seja, que o aceita com a diferença), desaparecem da mente. Dessa forma, o olhar apaixonado dá consistência ao eu semi-morto, e é nesse momento, com o gesto de Mina que o aceita como é, e está diante dele com vivacidade e ternura que se fecha a ferida da cruz (ferida narcísica) e a capela ganha cor, luz e vida.

Capela é o símbolo da religião. Religião significa, religar. Wlad agora pode ser ele mesmo: um humano. Liga-se ao próprio eu através do gesto espontâneo de Mina, que o viu, aceitou e recebeu. Sem magia, ele volta a ter a aparência do Wlad Teppes real, volta a ser um eu que se desveste do ideal, das representações, das mentiras e das seduções, para ser ele, um simples mortal que quer amar e, que pode, experimentar o amor do outro. É a morte do narciso.

Ele pede à Mina que abrevie seu sofrimento e livre-o de vez da praga de ser o que não é, mostre a ferida inteira, e ela afunda mais ainda a espada no seu coração libertando-o finalmente. Logo, separa-lhe a cabeça do corpo, e ele pode voltar a ter esperanças e acreditar que pode ter o que quer. Ao se tornar real, ele passa a ter a dimensão da própria força, não precisa guiar-se pelo ideal, mas crer que pode criar seu próprio destino. Assim, pode agora unir-se à Elizabetha. Wlad nesse momento pode abandonar a lei rígida estabelecida pelo ideal e ver que possibilidades sua realidade lhe apresenta.

Surge então, a imagem de Elizabetha (a real) e Wlad Teppes abraçados na cúpula da capela (tetos e cúpulas são simbolismos da mente). Isso significa a imagem do ego separado de seu objeto de amor, ou seja, ele não precisa mais ser o objeto para existir (mimetismo), ele pode estar com o objeto. O Narciso precisa ser o objeto e assim, não pode estar com ele.

O filme de Coppolla é brilhante e bem feito com reconstituições perfeitas e a utilização de técnicas usadas pela cinematografia daquela época. Tem um nível de tensão necessária e sem grandes exageros ou pirotecnias inúteis. O que difere essa adaptação das anteriores é a sobriedade com que o personagem é mostrado. Mostra que o amor é capaz de fazer tão mal, a ponto de transformar um homem num morto vivo, como também que é capaz de aos poucos, transformá-lo de volta num ser humano.

O filme foi produzido em 1992 e conquistou 3 Oscares da Academia (de melhor figurino, efeitos sonoros e maquiagem). Os atores principais são: Keanu Reeves (Harker), Winona Ryder (Elizabetha e Mina), Gary Oldman (Drácula) e Anthony Hopkins (Van Helsink). O filme é de grande beleza plástica. É um filme que pode e deve ser visto com outros olhos para que possamos compreender a natureza de muitas das pessoas à nossa volta, pois, ele não fala só de um mito mas, do comportamento de muitas das pessoas à nossa volta.

Mario Quilici, psicanalista, é um pesquisador independente e ativo do desenvolvimento infantil e de como os distúrbios do vínculo entre os Bebês e seus pais podem levar ao surgimento de psicopatologias na medida que impedem um adequado desenvolvimento emocional e conseqüentemente da personalidade. Também pesquisador e estudioso nas áreas de neuropsicologia e psiconeuroimunologia. O texto foi publicado originalmente no site http://www.psipoint.com.br
por Ro, às 08:21 de 15.07.2005 - Categoria: Dicas Divinas

Denis Blum comentou:

Sensacional. Sem palavras.
às 09:29 de 15.07.2005

Márcia BSB comentou:

Muito bom!
Excelente weekend pras MM!!!
Bejos.
às 10:30 de 15.07.2005

Luiza comentou:

Eu também adoro a história do Drácula. E considero o filme do Copolla o melhor de todos (já assisti tantas vezes que perdi a conta...).
às 10:51 de 15.07.2005

Ro comentou:

Sensacional é a cena em que o Drácula, como lobisomem, está comendo a Lucy e a Mina vê. E ele se enxerga refletido nos olhos dela e diz, apavorado: Não me olha.

É o olhar que vê a monstruosidade, a crueldade, a perversidade, a deformação, o feio, o doentio. E ela não se enoja com o que está vendo, ela simplemente constata como ele é. Nem sente medo. É sensacional.

Mas o galho de se conviver com um narcisista é que a doença é de estrutura. Difícil de tratar. É uma merda.
às 10:56 de 15.07.2005

Rosinha Monkees Viegas comentou:

Putz, me deu vontade de ver o filme de novo... acho que vou me acabar na locadora de casa só com títulos de vampiros para este final de semana que promete ser beeeemmmm frio, hehehe
às 11:05 de 15.07.2005

Denis Blum comentou:

Já havia conversado algumas vezes sobre o tema (traumas de primeira infância e formação de personalidade) com meu pai (psiquiatra). Esse texto consolidou de forma espetacular nossas discussões.
Soco na mente.
às 11:19 de 15.07.2005

ISA comentou:

Do drácula só vi o do Brahm Stoker e adorei.

Gosto mesmo é do Frankenstein, da Mary Shelley. Bonita história de amor.
às 13:09 de 15.07.2005

Ange comentou:

Ok, e agora o que eu faço com está angústia?
Será que estou educando meus dois pimpolhos da maneira certa, será que é este o caminho?

Eu não quero criar complexos na cabecinha e no coração deles...
às 13:32 de 15.07.2005

Ro comentou:

Ange querida, só pelo fato de você se perguntar isso, provavelmente é sinal de que as coisas vão bem...

Um das coisas que mais me chamaram a atenção quando eu estava grávida era as diferenças entre a minha forma de pensar o baby e a do Lord. Ele imaginava como seria ter um bebê, brincar com a criança, etc. Eu, como gostaria que meu filho fosse quando adulto, que conseqüências meus atos trariam para ele quando adulto.
às 13:41 de 15.07.2005

Ange comentou:

Obrigada Ro.

É bem assim mesmo. O que mais preocupa é se uma "ralhada" aqui vai deixá-los com neuras amanhã, se uma "falta de tempo" hoje vai fazer com que se sintam menos amados, e por aí vai.
Mas educar é isso, ler, aprender com os erros do passado, receber toques de meninas "cabeça como vocês"...

Fiquem com Deus.
às 14:12 de 15.07.2005

Leia-Recife comentou:

Ro, belíssimo texto!

Obrigada e bom fim de semana!
às 17:49 de 15.07.2005

Joelma comentou:

Vou imprimir e ler tudinho, Rozinha. Thanks! um beijo
às 18:28 de 15.07.2005

Bia Mondolfo comentou:

Oi, Megeras
Sou leitora assídua do blog de vocês. Adoro mesmo. E mais uma vez uma leitura de excelente qualidade aparece por aqui. Parabéns.

Bia
às 11:07 de 26.07.2005

andre mendes comentou:

PESSOAL, FUI AMIGO DO MARIO QUILICI, VIVI EM ISRAEL A MAIOR PARTE DE MINHA VIDA, VOLTEI DIA 24 DE JUNHO DE 2005, E ALGUMAS SEMANAS ANTES, MARIO PAROU DE RESPONDER MEUS MAILS DIARIOS, NAO SOUBE O QUE ACONTECEU. VOLTEI POR MOTIVOS DE SAUDE. AGORA UM POUCO RESTABELECIDO, VIVO COM MINHA MAE, EM UBERABA, POR FAVOR POR ESTES SITES FIQUEI SABENDO QUE MARIO FALECEU! FIQUEI PERPLEXO E ESTARRECIDO.
SE ALGUEM PUDER ME CONTAR O QUE FOI QUE ACONTECEU COM SHAY, QUE ERA SEU NOME DE JUDEU, POR FAVOR ME ESCREVAM ME DIGAM.
MEU NOME E ANDRE, AKA ARIEL LEON, MEUS E MAILS SAO...
lassale20@yahoo.com /> uberaba13@hotmail.com /> obrigado a todos
andre
às 16:10 de 30.01.2006
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