DAS INCAPACIDADES MINHAS DE CADA DIA

Imagem de Susana Ferreira

Para os meus amigos sou capaz de dar a mão e caminhar ao lado, de ouvir um pouco e de falar, falar, falar muito das qualidades que eles têm, de tudo de bom que já fizeram. Sou capaz de rir junto, de dizer asneira, de fazer piada para não vê-los chorar. Sou capaz de inventar desculpa, comida, viagem, programa, bobagem para que eles se distraiam e esqueçam de sofrer, pelo menos um tantinho. Sou capaz de deixar tudo que eu estou fando para fazer chá, chocolate quente, de dar a minha cama, de buscar mais cobertores, de escolher roupa bonita para que o dia seja mais leve. Sou capaz de contar histórias, minhas e deles, e sou capaz de inventar uma história nova para que eles pensem em coisa outra que não na dor. Mas sou incapaz de dar colo. Não sei como fazer isso, não faço a mínima idéia de como se faz. A gente deve calar a boca e olhar o outro se desfazer em lágrimas? Ficar em silêncio quando o outro faz perguntas? Ouvir o vômito da dor mais aguda e não sacudir, não consolar? O que a gente faz? Abraça? Eu não sou muito boa de abraço, nem de beijo, nem de cafuné, nem de cheirinho, nem de fofo-fofo. Eu amo meus amigos quase à distância. Talvez porque meus pais sejam assim, me amem (e eu sei que é muito) quase à distância. Não duvido do amor deles, sei que é imenso, mas é menos físico que de boa parte das pessoas. Nosso carinho é de olhar, de achar as coisas para dizer, de defender-nos uns aos outros contra tudo e todos, mesmo que tenhamos cometido o pior dos erros – claro que depois a gente se acerta e o sarrafo canta – mas estamos sempre uns ao lado dos outros quanto a coisa encrespa pra valer. Nosso amor é um amor de afago de vida, mesa posta, cama feita, levantar à noite para ver se está bem coberto, inventar jantar às duas da manhã. Não tem muito grude, muita pegação, muito afofar. Esse é o amor que eu aprendi a dar e que, ao se deparar com soluços e dor, se atrapalha e não sabe se diz pronto, pronto, já passou, se não diz nada, então muda de assunto, diz uma piada, faz um chocolate, compra uma pizza.
Esse é o meu único jeito de dizer: - Me dói muito te ver sofrendo porque eu te amo muito.


por Ticcia, às 08:54 de 29.04.2005 - Categoria: Crônicas Cretinas

Chicão RJ comentou:

BOM DIA!!
às 09:20 de 29.04.2005

Karina Bustamante - Muchacha comentou:

Simplesmente verdadeiro... não importa a forma de demostração de amor o afeto, e sim a intensidade e sinceridade de tal ato.
que seu final de semana seja maravilhoso!
bjus
às 09:48 de 29.04.2005

Rosinha Monkees Viegas comentou:

Eu me culpo por que sinto a mesma coisa que você, só que diferentemente com seres humanos, eu sou mais de afofar e cuidar de bichinhos... não posso ver um gatinho ou cachorrinho chorando que me acabo... quando se trata de um ser humano, eu fico travada... por que será? Eu devo ser um animal mesmo...
às 09:53 de 29.04.2005

Dune comentou:

Ticcia,
Acredito que o amor pode ser dado de inúmeras maneiras, não precisa ser sempre com movimentos corporais (colo, cafuné, etc...), em alguns momentos precisamos apenas de um olhar, de uma palavra, de atenção...Sabe? Fiquei grande parte da minha adolescencia me debatendo com o fato de que minha mãe não me dava a atenção que eu gostaria, ou seja, não me escutava quando eu precisava, não me dava colo...etc..pelo menos do meu ponto de vista. E depois de muito divã e reflexões me dei conta que o amor e a atenção dela vinham de outra forma, através de um telefonema, de um apoio financeiro, de presentes e mimos que ela vivia me dando...Com isso tudo aprendi que não basta reconhecer o amor que queremos receber, o grande desafio é reconhecer o amor que é opossível para as pessoas nos dar naquele momento e decodificá-lo, traduzi-lo...O importante é que sintamos que existe alguém que nos olha, nos dá atenção, nos sustenta, seja da forma que for...Sofrer com dor do outro é uma grande forma de amar. Beijos amorosos
às 10:34 de 29.04.2005

Patileine comentou:

Também acho que não tem jeito certo para expressar amor. Cada um tem um jeito. Escrever um texto como esse, por exemplo, é um jeito muito especial de mostrar o quanto alguém é amado...
às 11:37 de 29.04.2005

carmella comentou:

Se é que eu posso ajudar e acredito que sim deixo aqui, pra sua amiga, um colo e um abraço,muito muito afetuosos , do mesmo jeito que dou para meus filhos quando precisam.A dor faz parte do crescimento humano;literalmente falando. Sabia que existem crianças que têm dor do crescimento? É isso minha linda, logo logo essa dor vai ser substituída pelo alívio da reconciliação e da certeza que somos muito mais do que sofrimentos.

Um beijo
às 14:53 de 29.04.2005

Patricia do Rio comentou:

Eu me identifiquei totalmente. Quando vejo um amigo chorando não consigo ficar parada, nem dizer "chora, que é bom pra desabafar". Dá vontade de fazer qualquer coisa para que ele melhore. E nunca fui muito de contato físico mesmo, não sou de abraçar, apertar. Às vezes parece frieza, mas não é. Acho que existem outras formas de carinho, de demonstrar cuidado.
às 15:18 de 29.04.2005

belly, born to give hugs comentou:

existem mil e uma maneiras de preparar Neston. cada um tem a sua. e todas são muito boas, grazie tante.

mas se vc quiser aprender a abraçar, só abraçar, me disponho a partilhar o que aprendi.

amar se aprende amando e abraçar se aprende... abraçando. no começo é estranho. depois só vai.
às 18:49 de 29.04.2005

Carô-SP comentou:

Faço biodança, alguém já ouviu falar? E lá a gente trabalha muito a afetividade, só tem abraço, beijo, muito toque. Eu sempre fui de abraçar muito, de beijar e tenho desenvolvido mais ainda este meu lado. Mas acredito que cada um tem a sua forma de expressar os sentimentos e este texto, Ticcia, com certeza "abraçou" bem forte o coração de alguém.
Beijos e bom final de semana
às 18:58 de 29.04.2005
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