
O FUNERAL
Tontinha e seu dilema
Tontinha da Silva, leitora assídua, conta que mantém um longo relacionamento com Indeciso de Araújo. Diz que é louca pelo bofe, que a satisfaz sequesualmente no melhor estilo meu pão de mel, mas que não consegue mais lidar com a dupla personalidade do rapaz que ora quer ora não quer. No momento o querido está na fase não quer: almoçou com ela no sábado e ficou de ligar no domingo. Nem domingo, nem segunda, nem terça, nem nos últimos 15 dias. Afirma que não sabe o que fazer da vida agora que o bofe resolveu não querer sem comunicá-la formalmente: se liga prele, compra uma bicicleta ou esfola o cachorro dele e manda entregar no café da manhã com lírios.
A resposta da Megera
Querida Tontinha,
então o cidadão foi comprar cigarro e nunca mais voltou! Acontece. Provavelmente ele morreu e está na hora do ritual do
DESAPEGO e ACEITAÇÃO. Cigarros tem na vendinha da esquina, e ele não iria se perder na vendinha, logo, se não voltou foi porque morreu e você
PRECISA aceitar e deixá-lo descansar em paz.
Tome um banho bem relaxante, com direito a óleo de maracujá e sais. Vista aquele seu pretinho básico chiquérrimo, saltos finos, meias de seda, jóias verdadeiras e dê um up no perucão (não se esqueça de perfume e batom). Vá bem-linda- bem-tudo na papelaria e compre uma caixa grande, um pincel atômico vermelho, fita adesiva e papel pardo. Depois passe numa loja de R$ 1,99 e compre um belo raminho de flores de plástico (de preferência, que custe menos de R$ 1,99).
Chegando em casa, providencie Nina Simone, Don't Explain, seguido de Diana Krall, Why Should I Care. Tire suas magníficas compras da sacola e espalhe sobre a cama. Junte todos os objetos que remotamente possam lembrar o falecido (livros, fotos de Sorocaba, CDs da Jennifer Lopes, tiquete de entrada para O Demolidor, cuecas, escova de dentes e todas as outras tralhas que ele deixou no seu lar) e espalhe sobre a cama.
Você está sentindo o desapego tomar conta do seu corpo? É assim mesmo, querida. Siga em frente que a trilha sonora ajuda bastante e foi feita especialmente para esta cerimônia.
Agora pegue as quinquilharias e coloque tudo dentro da caixa. Embale cuidadosamente a caixa com o papel pardo, num lindo pacote de presente. Delicadamente, cole o raminho de flores na tampa. Agora use o pincel atômico vermelho para escrever, com carinho:
AQUI JAZ INDECISO DE ARAÚJO. Depois guarde o presente no fundo da gaveta de sapatos, com a bota vermelha-cano-longo por cima (acaso não possua uma, compre).
Pronto. Você acaba de passar pelo ritual do
DESAPEGO e ACEITAÇÃO, uma prática muderna e sofisticada que ajudará o Aqui Jaz a ser feliz no segundo círculo de Dante e você a se tornar uma esplendorosa Viúva Alegre.
Precisando de conselho, mande um e-melho:
divasnodiva@yahoo.com.br
Você está acostumada com sessões de tempo cronológico, freudianas, junguianas, que costumam variar entre 45 e 50 minutos. Daí vai bem lépida e faceira para a análise lacaniana (que o tempo cronológico é determinado pelo paciênte ao sair do plano imaginário e entrar no plano real, ou algo do gênero...) e conta do filme, depois do telefonema, depois da despedida, depois da análise do filme.
E diz que chegou na palestra sem fazer a inscrição querendo o olhar masculino. Optou pelo coordenad(OR) que contava com um número maior de incritos, partindo da premissa de que o melhor costuma ter maior público, já que todos eram completos estranhos. Se fodeu por que o grupo era péssimo, a discussão foi horrível e, somente mais tarde, soube que a galera foi dividida por órdem alfabética donde o grupo que você escolheu era o maior por que o auditório era o maior. Afirma que não quer se foder novemente, fazendo escolhas erradas com base num olhar que só enxerga a superfície.
Daí o homi diz
ficamos por aqui depois de 22 minutos.
Ele quer me enlouquecer, só pode ser isso!