Imagem de Paulo Freitas - O Sopro do Dragão
Eu sempre achei que um dia alguma coisa extraordinária aconteceria na minha vida, uma coisa mágica, inexplicável, daquelas dignas de roteiros roliudianos, contos de fadas, estarrecedora, de cair o queixo. Sempre pensei que um dia eu ia encontrar algo assim e ia saber só de olhar. Seria algo inconfundível, impossível de não perceber, muito evidente estar ali diante de mim, como se naquela hora houvesse algum anjinho pra sussurrar
“Ó, taí, não disse?! Aproveita!” e começar a tocar trombeta imitando o Miles Davis. E ia ser com direito a tudo: fogos, pirotecnia, efeitos especiais, trilha sonora, cenário de primeira, roteiro impecável (com imperfeições que ainda tornariam tudo mais perfeito), no melhor estilo
“ó abre alas”, enredo Joãozinho Trinta, fantasia Evandro de Castro Lima, luz e som de show dos Rolling Stones, um desbunde. Eu sempre tive certeza de que havia mesmo algo de incrível me esperando em algum lugar, uma conspiração secreta da vida, do destino, do insondável, esperando o momento certo para eclodir, simplesmente questão de tempo. Achei mesmo que lá pelas tantas, depois do choro, merdança, ranger de dentes, lágrimas, degustação de toda padaria do diabo, depois de ir ao inferno e abraçar não só o próprio, mas a família toda, depois da Margil Jaime de professora de matemática, da educação física, do óleo de rícino, depois do malar quebrado, do aparelho ortodôntico, dos pé-na-bunda, ah, depois, depois sim, depois também de saber o que é bonito, o que vale a pena, o que realmente importa, depois de saber o que esperar, aí viria a bonança, o ziriguidum, o lesco-lesco, o bem bom, depois ia ser aquilo de rebolar e atirar beijo,
“ah, até que enfim!”, a vida sonho vida, concreta, palpável, coisa de viver e contar com zoinho brilhando, que só de lembrar já ia transformar o médio menos em
A com estrelinhas especial de primeira, algo para fazer diferença para sempre, para eu nunca mais deixar de ser feliz, para justificar tudo, tudo, tudo vivido até ali, cada tropeço, cada acerto, cada bigornada na cabeça, cada bandaid. Eu estava certa de que isso tudo era para alguma coisa e que a vida passaria a ter sentido na estrita conotação do termo. Sempre achei isso e nunca duvidei que merecia. O ano de 2005 foi assim. Só peço 2006 na mesma batida perfeita. Não precisa melhorar, senão estraga.
Pra vocês, meus queridos companheiros de viagem, desejo que o ano de 2006 tenha tudo isso, ou que tenha a fé na existência dessas coisas, que já faz um bem danado. Que as agruras, as dores, as tristezas, os rasgos na alma, os pedaços arrancados, as decepções e desilusões, sirvam para a gente contabilizar a passagem pela vida, já que ela
só se dá pra quem se deu, pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu.
Obrigada pela companhia. Fecharemos 2005 com mais de 320.000 acessos, somando um tanto mais de 485.000 desde agosto de 2003. É como eu sempre digo: tem muito louco neste mundo (felizmente alguns têm bom gosto). Beijos. Tim-tim.