20.11.2005

XXII - Pablo Neruda

Quantas vezes, amor, te amei sem ver-te e talvez sem lembrança
sem reconhecer teu olhar, sem fitar-te, centaura,
em regiões contrárias, num meio-dia queimante:
era só o aroma dos cereais que amo.

Talvez de ti, te supus ao passar levantando uma taça
em Angola, à luz da lua de junho,
ou eras tu a cintura daquela guitarra
que toquei nas trevas e ressoou como o mar desmedido.

Te amei sem que o soubesse, e busquei tua memória.
Nas casa vazias entrei com lanterna a roubar teu retrato.
Mas eu já não sabia como eras. De repente

enquanto ias comigo te toquei e se deteve minha vida:
diante de meus olhos estavas, regendo-me, e reinas.
como fogueira nos bosques o fogo é teu reino.


por Ro, às 20:45 de 20.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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