24.11.2005

CORTE E COSTURA.


Hoje, no Não Discuto.


por Ticcia, às 15:42 de 24.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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23.11.2005

MONÓLOGO DE ORFEU.

Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
E' mais porque te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...

E sabes de uma coisa? cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, - que é que eu sei! essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem - nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! e me dizes essas coisas
Que me dão essa fôrça, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! criatura! quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres - que êle, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que eu estarei contigo!


(Reproduzido do livro 'Orfeu da Conceição', Vinicius de Moraes, Livraria S. José, Rio, 1960.)


por Ticcia, às 22:44 de 23.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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22.11.2005

O MEU AMOR

(Chico Buarque)

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
E que me deixa louca quando me beija a boca
A minha pele toda fica arrepiada
E me beija com calma e fundo
Até minh'alma se sentir beijada

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
Que rouba os meus sentidos, viola os meus ouvidos
Com tantos segredos lindos e indecentes
Depois brinca comigo, ri do meu umbigo
E me crava os dentes

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me deixar maluca quando me roça a nuca
E quase me machuca com a barba mal feita
E de pousar as coxas entre as minhas coxas
Quando ele se deita

O meu amor tem um jeito manso que é só seu
De me fazer rodeios, de me beijar os seios
Me beijar o ventre e me deixar em brasa
Desfruta do meu corpo como se o meu corpo
Fosse a sua casa

Eu sou sua menina, viu? E ele é o meu rapaz
Meu corpo é testemunha do bem que ele me faz



por Ticcia, às 23:25 de 22.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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20.11.2005

XXII - Pablo Neruda

Quantas vezes, amor, te amei sem ver-te e talvez sem lembrança
sem reconhecer teu olhar, sem fitar-te, centaura,
em regiões contrárias, num meio-dia queimante:
era só o aroma dos cereais que amo.

Talvez de ti, te supus ao passar levantando uma taça
em Angola, à luz da lua de junho,
ou eras tu a cintura daquela guitarra
que toquei nas trevas e ressoou como o mar desmedido.

Te amei sem que o soubesse, e busquei tua memória.
Nas casa vazias entrei com lanterna a roubar teu retrato.
Mas eu já não sabia como eras. De repente

enquanto ias comigo te toquei e se deteve minha vida:
diante de meus olhos estavas, regendo-me, e reinas.
como fogueira nos bosques o fogo é teu reino.


por Ro, às 20:45 de 20.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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18.11.2005

OLHOS INVENTADOS.




Inventei uns olhos muito grandes que não piscam.



(continua aqui)


por Ticcia, às 11:04 de 18.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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17.11.2005

RE-CONHECER

Edgar Degas







Eu sou o que há de outros em mim. Restos de choro e riso, de calor e envergadura, de água e cachaça, de limão e creme dental, de açúcar e carvão. Fragmentos de outros corpos, outros sonhos, outros pecados, outras angústias, outras descobertas. Remendos de tentativas inúteis e triunfais, de fracassos que deram certo, de amanhãs mil vezes recomeçados, de acalantos só, de ventre vazio, de perdidos encontros. Como uma colcha de fuxicos, eu sou o colorido de outros seres cerzido com o arame de amores nem sempre sãos, nunca de todo débeis. Frações de histórias vermelhas, azulejos trincados, músicas de ninar, cerveja barata, roupa suja lavada na rua, sussurros floridos. Amores de construção. Pedaços de vaidade, exibicionismo, pudor, compaixão, sordidez, desvelo, veneração, de medo e rouquidão. Conceitos arruinados, raivas partidas, virtudes desmanteladas, carinhos oferecidos, gargalhadas compartilhadas. Amores de unificação. Essa dureza que vês, cabe na palma de tua mão, por que eu sou o que há de outros em mim. E se não fosse assim, não seria tua.








Então... republicado, por que ela não pede, manda.

por Ro, às 23:40 de 17.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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15.11.2005

A VIDA NÃO CHEGA.

(Viviane)

Dois lírios sobre a mesa
Uma janela aberta sobre o mar
Trago em mim a certeza
De quem espera p´lo teu voltar

Um cheirinho a café
Fotografias caídas pelo chão
E no ar uma canção
Traz-me uma recordação

Tenho um poema escrito
Guardado num lugar perto do mar
Tenho o olhar no infinito

E suspiro devagar

O tempo aqui parou
Desde que te foste embora
Só a saudade ficou
já não aguento tanta demora

Tenho tanto por dizer
Tanto por te contar
Que a vida não chega
Tenho o céu e tenho o mar
E tanto para te dar
Que a vida não chega

Tenho tanto por dizer
Tanto por te contar
Que a vida não chega
Tenho o céu e tenho o mar
E sei que vou te amar
Para a eternidade…


por Ticcia, às 22:36 de 15.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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13.11.2005

Olhos de dentro, coração no centro.




Na minha infância eu achava que a maior coisa que poderia existir no mundo era um barco. Não poderia existir nada maior. E ai quando eu queria me referir a algo, dizia: "é tão grande quanto um barco" e todo mundo morria de rir.

Meu amor por você, é tão grande quanto um barco. Mas não o barco de agora, o barco da minha infância.

Por que chorou?

Engraçado, eu te dei Charles Aznavour, Cortázar, Leminski e você se emociona ouvindo falar da minha infância.



por Ro, às 22:49 de 13.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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10.11.2005

THE SCIENTIST

(Cold Play)

Come up to meet you, tell you I'm sorry
You don't know how lovely you are

I had to find you
Tell you I need you
Tell you I set you apart

Tell me your secrets
And ask me your questions
Oh let's go back to the start

Running in circles
Coming up tails
Heads on a silence apart

Nobody said it was easy
It's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard

Oh take me back to the start

I was just guessing
At numbers and figures
Pulling your puzzles apart

Questions of science
Science and progress
Do not speak as loud as my heart

Tell me you love me
Come back and haunt me
Oh and I rush to the start

Running in circles
Chasing our tails
Coming back as we are

Nobody said it was easy
Oh it's such a shame for us to part
Nobody said it was easy
No one ever said it would be so hard

I'm going back to the start


por Ticcia, às 14:50 de 10.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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09.11.2005

O Primeiro Presente: Julio Cortázar em noites de Jazz entre lençóis olentes...

Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Klimt


Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.


Capítulo 7 de O Jogo da Amarelinha, onde Horácio observa Lúcia dormir ao seu lado.

por Ro, às 13:13 de 09.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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PERSEGUIÇÃO.

por Ticcia, às 12:08 de 09.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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Vambora

(Adriana Calcanhoto)

Entre por essa porta agora
E diga que me adora
Você tem meia hora
Pra mudar a minha vida
Vem, vambora
Que o que você demora
É o tempo que leva...
Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda tem você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Dentro da noite veloz
Ainda tem o seu perfume pela casa
Ainda têm você na sala
Porque meu coração dispara
Quando tem o seu cheiro
Dentro de um livro
Na cinza das horas


por Ticcia, às 11:48 de 09.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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04.11.2005

INSPIRAÇÃO.



Tempos diferentes no Não Discuto.

por Ticcia, às 15:31 de 04.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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03.11.2005

Cintilante








A menina tem os olhos salpicados de estrelas. O dia chega mais cedo e ela quer brincar de roda. Usa cantigas de ninar para encantar tubarões. Caminha no vento sem fazer barulho, dorme com a chuva em estardalhaço. Tem os braços polvo e as pernas mansas. Gosta de tango e suas mãos estão lambuzadas de chocolate quando acaricia. Nas noites de frio ela dança nua na vitrine. Chora alto, canta desafinado e reza baixinho. Conhece o subterrâneo, não foge do escuro, joga amarelinha. A menina tem os olhos salpicados de estrelas, mas caminha devagar.






por Ro, às 10:21 de 03.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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MANHÃS.


Amanhecendo no Não Discuto.

por Ticcia, às 09:28 de 03.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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02.11.2005

TATUAGEM

(Chico Buarque/Ruy Guerra)

Quero ficar no teu corpo feito tatuagem
Que é pra te dar coragem
Pra seguir viagem
Quando a noite vem
E também pra me perpetuar em tua escrava
Que você pega, esfrega, nega
Mas não lava

Quero brincar no teu corpo feito bailarina
Que logo se alucina
Salta e te ilumina
Quando a noite vem
E nos músculos exaustos do teu braço
Repousar frouxa, murcha, farta
Morta de cansaço

Quero pesar feito cruz nas tuas costas
Que te retalha em postas
Mas no fundo gostas
Quando a noite vem
Quer ser a cicatriz risonha e corrosiva
Marcada a frio, e ferro e fogo
Em carne viva

Corações de mãe
Arpões, sereias e serpentes
Que te rabiscam o corpo todo
Mas não sentes



por Ticcia, às 20:28 de 02.11.2005 - Categoria: Apoplexia Poética
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