31.01.2005

SOB MEDIDA

Ela disse que não estava bem. TPM, dor de cabeça, irritação. Avisou que gostaria de ficar só, que leria, ouviria música, relaxaria e dormiria cedo. Ele preocupou-se, ela disse que não havia porquê.

Seis da tarde, temporal.

Ela deitada no sofá, livro na mão, xícara de chá, Miles. Ouve passos no corredor, um ic... – ic... – ic... – ic... de tênis molhado. Tem a impressão que os passos se detém em frente ao seu apartamento. Ela suspira alto pensando no incômodo de receber quem quer que fosse. Escuta um farfalhar de papel celofane. A campainha toca, os passos afastam-se em desabalada correria: ic-ic-ic-ic-ic-ic-ic...

Ela levanta-se, abre a porta e lá, abandonado sobre o tapete da entrada, um imenso buquê de rosas vermelhas encharcado de chuva.

por Ticcia, às 16:57 de 31.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

28.01.2005

Da Série ANÁLISE DO DISCURSO

- Eu te amo.
- Hahahahaha.
- Eu digo que amo e o cara cai na gargalhada. Mas eu cheguei ao fundo, mesmo!
- Mas também, tu te atiras!
- Por que achas que o fato de alguém te amar está se jogando no fundo do poço?
- Eu não disse isso!
- Acabaste de dizer. Eu disse que te amava, tu deste risada, eu afirmei que havia chegado ao fundo...
- Eu dei risada da afirmação anterior...
- ...e tu disseste que eu me atirei.
- Estás distorcendo.
- Descrevendo friamente os fatos.
- Advogados sempre distorcem para o que lhes é mais conveniente.
- Não, senhor! Analisam.
- Verborragia.
- Hemenêutica.
- Manipulação.
- Retórica.
- Manipulação 2.
- Interpretação.
- Manipulação 3.
- Agora que teus argumentos acabaram, sugiro que não tornes a discutir com uma advogada.
por Ro, às 15:31 de 28.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

O gato subiu no telhado...

Patrícia, eu sei que é muito difícil, mas dói mais em mim do que em você só o simples fato de ter que te dar a notíccia. Eu não tive coragem de contar pessoalmente, nem ontem durante o jantar - em que estavas tão meiga comendo sushi - nem hoje no almoço, pois devoravas com tanto gosto as iscas de filé que não quis estragar teu prazer. Mas não posso deixar passar mais tempo. Não conseguiria dormir sem te contar o triste acontecimento. Fica calma, as coisas vão melhorar! Vem cá, senta aqui. Eu preciso saber da sua vida, por que você tirou partido de mim e abusou, mas eu sou sua amiga. E por que estou ao lado esquerdo do peito, dentro do coração, vou te contar. Toma um copo d'água. Tá tranqüila? Que bom, querida! Eu escondi os jornais para que tu não levasses um choque muito grande. É bem melhor saber dessas notíccias por uma amiga. Não se desespere, essas coisas acontecem todo dia. É que o Dilonei Francisco Melara* morreu. É, morreu. O corpo foi encontrado num matagal desfigurado por mais de vinte tiros. Uma judiação! Os insensíveis atiraram até no rostinho dele, coitadinho. Essa gente sem coração! Foi uma morte estúpida. Ele não merecia. Mas dizem que mesmo jogado como um qualquer ainda conservou a beleza. Por que tu sabes, né, homem gostoso até nesta hora continua bem. Não chora, tá, amiga. Vai passar!
________________________________________

*Dilonei Francisco Melara era o mais conhecido e gostoso bandido gaúcho. Foragido deste meados do ano passado, quando escapou do semi-aberto. Ficou mundialmente conhecido na década de 90, por ocasião de sua mais espetacular evasão do Presídio de Segurança Máxima de Chaqueadas, quando obrigou o motorista do taxi roubado na fuga a invadir o hall de entrada de um hotel cinco estralas de Gay Harbor, quebrando vidros e arrastando sofas, e iniciou um tiroteio. Uma cena magnífica. De cinema. Patrícia era fã incondicional do meliante.
por Ro, às 14:53 de 28.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

24.01.2005

EU JURO!

Sua lente de contato se rebelou bem na hora que você está indo buscar sua amiga para irem à Baga-Sexta. Oh, oh, oh, muitas lágrimas, algum desespero e direção perigosa com um olho só depois, você decide parar numa farmácia de posto de gasolina para comprar um colírio, lenços de papel, soro fisiológico ou um olho novo, o que for mais rápido.

O posto está um atrolho de gente porque sabe-se lá por que motivo, meninos, meninas e seres de outro planeta andam com a mania de se acotovelar entre bombas de combustível e lojas de conveniência antes de partirem para a balada.

Você conduz seu bólido reluzente por entre a selva de automóveis, minas, manos e frentistas e nota que há um imenso carro importado parado em frente à vaga da farmácia, obstruindo a entrada. Você buzina gentilmente e vê o bofe lindíssimo que está dentro do carrão sorrir. Você sinaliza que precisa entrar na farmácia. Ele acena positivamente com a cabeça, ainda sorrindo, e coloca o carro mais para frente.

Você desce do carro e confere, com o cantinho do olho que não está lacrimejando, que o bofe está te observando. U-a-u.

Muito tempo depois, já com a lente limpinha, o colírio na bolsa e os lencinhos à mão, você sai da farmácia e resolve dar uma panorâmica no posto para ver se o bofe ainda está lá. Olha, nada discretamente, para um lado e outro, aperta os olhinhos, fica na pontinha dos pés até ouvir uma leve buzinadinha. É o bofe, que assistiu toda a sua bandeira/desespero, parado charmosamente do outro lado da rua. Você sorri, mas queria mesmo era se atirar no chão e esperniar de desespero.

Você sai do posto e o semáforo fecha. Ele pára ao lado, se apresenta, pergunta seu nome e para onde você está indo. Você diz que vai pegar uma amiga para irem a uma festa numa boite que é reconhecidamente gay, mas que só hoje não é. Ele ri. Você diz que jura. Ele diz que passa lá depois. Óbvio que não aparece. Deve ter achado que você estava debochando dele.

Bem feito. Quem manda freqüentar Baga-Sexta. Hohoho.


Hoje é Baga-Sexta, não é noite gay!

por Ticcia, às 10:20 de 24.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

20.01.2005

DO FETICHE NOSSO DE CADA DIA

- Vou te dar um vibrador de presente.
- É?
- Tu queres?
- Claro.
- Que tamanho preferes?
- Não sei.
- Vou te dar um mais ou menos assim, ó. Parecido comigo.
- Tá bem.
- Escolhe um nesse site e me avisa.
- Ah, não.
- Não?
- Não. Eu quero que tu vás até a loja, olhes, escolhas, compres e me entregues.
- Por quê?
- Para eu saber que fizeste isso.
- Depois o fetichista sou eu.


por Ticcia, às 16:50 de 20.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

Reencontro...

Eles se encontram no lançamento da revista. Ela aceita o convite dele - um dos ex - para tomar licor no apartamento. Conversa vai, conversa vem, eles acabam no sofá, que ela ainda não conhecia. Ele, cheio de braços e pernas. Ela, sem saber onde colocar braços e pernas.

- Calma, querido. Se fosses um desconhecido, eu já estaria na cama contigo há muito...
- Ah, então com um qualquer não tem problema?


***************
Agora vai explicar preles (a raça masculina) o porquê.
por Ro, às 14:21 de 20.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

19.01.2005

E AGORA, JOSÉ?

A moça chega na festa com o bofinho com o qual ela está saindo ultimamente (sem muito entusiasmo). Lá reúne-se com a turma e avista "O Bofe" pelo qual a moça arrasta uma carreta. Oh! Oh! O que fazer? Ficar com "O Bofe" está descartado, já que ela perderia o bofinho companheiro dos dias difíceis, mas desfilar com o bofinho na frente de "O Bofe" está fora de cogitação.

Ela faz uma cara horrível. O bofinho pergunta o que houve e ela responde entre-dentes: Estou super chateada contigo. Mas o quê?! Depois conversamos.

Pronto. O bofinho fica com cara de cachorro que lambeu graxa, ela fica com os amigos e O Bofe não desconfia que ela está acompanhada. Depois, em casa, ela diz para o bofinho que ela o viu paquerando uma fulana qualquer. Ele nega (até porque não olhou mesmo), ela faz beicinho de ciúmes, ele amolece e eles fazem as pazes.

Mulé inteligente.

É o que eu sempre digo: ampliar o plantel o máximo possível, para o banco de reservas não ficar vazio.

por Ticcia, às 15:34 de 19.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

14.01.2005

SOBE?

Você, esbanjando volúpia com seus lábios cobertos por uma espessa camada de Dior Rouge Addict, entra no elevador e encontra o bofe. Ele sorri, diabólico. Assim que a porta fecha, ele avança e tasca-lhe um beijo de acelerar até as mais recôndidas partículas quânticas. O elevador pára e entram outras duas pessoas. Antes de saltar no seu andar, você olha para ele e diz:

- Tu ficas ótimo de batom vermelho.

por Ticcia, às 11:15 de 14.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

13.01.2005

UM DIA DA CAÇA ...

Você sofre de desejo crônico por um certo BB - Bofe Bem. Aliás, um certo BBPM - Bofe Bem Padrão Megerístico. Muitas de suas noites insones são aplacadas graças ao elevado e sublime auto-erotismo de seu pensamento - dentre outras atividades digamos, menos intelectuais - focalizado no BBPM. Você está firmemente resolvida a persuadi-lo. E vai se empenhar.

Dai, um tubarão brota do mar de processos no qual você está mergulhada, direto na sua horta. Você tem a feliz idéia de ligar prele. Uma vez. Duas vezes. Três vezes. Duzentas e quarenta e oito vezes. A sua secretária acha estranho. A dele mais ainda.

Quando todos os colegas de escritório dele começaram a fazer piadinhas, você entendeu conveniente adiantar o assunto para a secretária, começando com a "subsunção da norma ambivalente", passando pelo "efeito reflexo da decisão interlocutória do juízo incompetente" e terminando com a "prescrição intercorrente do fundo do direito".

Horas depois, diante do ar de preocupação da secretária, o Todo Poderoso finalmente decidiu retornar suas ligações, no meio da sua seção de massagem.

- Qual é o caso?

Plá, plá, plá interminável. Racicínios precisos e concisos. Efetivamente, vocês combinam até para trabalhar. Ele corroborando a tese que você tinha desenvolvido, arremata:

- Agora fala a verdade, tu querias era me parabenizar!

- Nem sabia. Mas assim que sair da cama vou providenciar um mimo...

- Na cama a essa hora! Estás doente?

- Tsc tsc tsc. Nua, no massagista.


(silêncio)
por Ro, às 15:21 de 13.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

11.01.2005

Enquanto isso, em Fred West...

Roberta Arabiane mergulhada no mar de processos. Nem levanta a cabeça para não se desconcentrar. Jesus chama e ela move as orelhas para responder. O estômago grudando nas costelas e a moça pensando em como comer sem perder tempo.

De inopino, Dr. Phil entra na sala, todo suado e cantando feliz...

Lá vem o negão, cheio de paixão
Te catar, te catar, te catar
Querendo pegar todas as menininhas...


Pois não é que depois da Sara Jane, ele se superou mais uma vez.
por Ro, às 13:51 de 11.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

07.01.2005

FIIIIIIIIIIIIIIIIIIITTTTTTTTTTTTTSSSSSSSSSSSSS



Hilda, a gata, como todos os gatos, adora passarinhos. Adora não seria bem o termo. Digamos que ela tenha uma predileção especial por esses bichinhos emplumados e voejantes.

Tanta predileção, que ao constatar que havia um ninho em cima do ar condicionado, Hildolina dedicou dias e noites a remover a espuma de vedação da volta do aparelho na esperança de conseguir apoderar-se daqueles serzinhos emissores de “pi-pi-pi-pi”. Felizmente, para eles, e desgraçadamente, para a esforçada Dolina, tudo inútil. A gata continuou muito tempo ouvindo os pi-pi-pi-pi dos provocantes passarinhos e quase morria de ânsia. Pulava, miava, arranhava e nada, tadinha.

Seu programa de janela preferido é o das 6 da manhã e o das 7 da noite. Entra e sai de passarinhos do ninho, revoada de passarinhos nas árvores perto do prédio. É hipnose absoluta. Nem catnip tira ela do parapeito.

Vai daí que chego eu em casa, esbaforida e cansada e sento no sofá. Hildolina vem até mim, mia e corre para o quarto. A cena se repete e repete e repete. Que é isso, Doda? Ficou lôca? Vai e volta e eu estirada no sofá, até que ela vem com um passarinho na boca e coloca sobre o meu chinelo, com a maior cara de “ó, presente procê”. Felizmente o bichinho já estava morto, mas eu fiquei mais de semana achando peninhas cinza pelo quarto e dizendo para ela: Tadinho do passarinho, Doda, gata má. E ela com aquela cara de Um dia da caça, outro do caçador.

por Ticcia, às 10:15 de 07.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

06.01.2005

REENCONTRO

Eles estavam abraçados na cama vendo a Ana Paula Padrão, depois de muito tempo separados.

- Você conseguiu me amar?

Silêncio. Respirações contidas.

- Você se sentiu amada?
- To perguntando.


Silêncio. Respirações contidas.

- Sim. Acho que sim.
- Acho que eu ainda me sinto.


Ele a abraça mais forte contra o peito.
por Ro, às 21:40 de 06.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

SONHOS DE UMA NOITE DE VERÃO

Dez da noite, gente nas calçadas, uma sandália de tiras, vestido rodado, um vento que parece vir de longe. Você se detém no cruzamento esperando que os carros passem, mas o carro que vem traz um susto. Olhos azuis cruzam com os seus e ele sorri um sorriso de setembro. Você coordena uma perna depois da outra e consegue atravessar a rua. Deve ter sido mais uma visão. Então você caminha com um enxame de abelhas em volta, com os pés sobre molas de meio metro, com os braços alongados até o chão. Até que na próxima esquina seus olhos que já não distinguiam árvore de gente, encontram novamente o azul. Oi. Oi. Estás indo para onde? Pro céu. Ele ri. É longe? Você ri. Não. Posso te dar uma carona? Aí você percebe que deve ter morrido atropelada uma esquina antes.

por Ticcia, às 10:20 de 06.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

05.01.2005

ME EMPRESTA O CARRO?

Só quatro horas de sono, para uma pessoa que normalmente precisa de oito, no mínimo. Ticcia resolve colocar o despertador para 20 minutos mais tarde e atropelar a rotina matinal, só que no horário que ela acordaria de costume, liga Facelo. Quer o carro emprestado pra levar não sei o quê não sei onde. Tá bem. Ticcia perde os preciosos 20 minutos, empresta o carro para Facelo. Vai ter que passar de táxi no escritório e pegar pilha de processos, desmarcar a massagista e a manicure porque não terá como chegar lá a tempo. Não há de ser nada, deus tá olhando.

Facelo trabalha numa concessionária de automóveis. Na verdade, é chefe de um setor onde trabalham 9 homens: mecânicos, chapeadores, eletricistas, um mais bagaceiro que o outro. Resolve mandar o carro de sua adorada irmã para a lavagem a fim de entregá-lo limpinho. Na lavagem, os rapazes encontram uma peça íntima feminina no carro, que vai parar no mural da empresa, com um pedido de explicações, já que Facelo é pelotense.

É o que eu digo, senhouras e senhoures da platéia: às vezes sai caro pedir um automóvel emprestado.



Em tempo: Não responderemos perguntas a respeito das circunstâncias em que foi esquecida a peça íntima. Hohoho.



********************************************

ATENÇÃO, POVO!

Acabo de descobrir que este é o post nº 1000!
Eu gostaria de dedicá-lo às criancinhas do Brasil.
Obrigada.

Ass.: Ticcia, com a bola toda.

*********************************************

por Ticcia, às 14:44 de 05.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários

GATA EM TETO DE ZINCO QUENTE

Onze anos de idade e sua mãe insistia para que ela levasse merenda para a escola. Todos os colegas já compravam (há anos) seus lanches na cantina. Entre pagar o suposto mico de levar o embrulho de papel alumínio para a aula e ficar sem comer nada, nem precisa dizer qual era a opção da mocinha.

Toda manhã, às 7h e dez minutos, momentos antes de descer para esperar o ônibus escolar, Maria Valquíria atirava o pacote do sanduíche pela janela da área de serviço do apartamento 309, terceiro andar, da Rua Gomes Carneiro, 456.

Três meses e aproximadamente 60 embrulhinhos depois, às 7h 26 minutos, o Sr. Clodoaldo, Gerente de manutenção da FUNILARIA VEIGA LTDA., com sede num Galpão de telhado de zinco situado na Rua Gomes Carneiro, 458, tocou a campainha do apartamento 309.

por Ticcia, às 11:12 de 05.01.2005 - Categoria: Estórias da Carrocinha
Ver Comentários