30.12.2004
DE MÃOS DADAS
O ano de dois mil e quatro chega ao fim com gosto de fim. Não, este ano não voou, não passou despercebido, não correu. Mostrou a rudeza e a força do tempo, em cada dia passado no calendário, com a intensidade do cinzel que desbasta a pedra para transformá-la.
Foi um ano de tanto em todos os sentidos (sensoriais e conotativos), de transbordamentos, de taças cheias (inclusive as amargas). Foi um ano de andar descalça, de provar sutilezas e de me apoderar das abundâncias. Foi um ano de lágrimas que vieram depois de sorrisos rasgados, paridos com fúria, de choro alto como criança, de achar meus caminhos, reconhecer minhas pegadas, descobrir umas trilhas que eu não me julgava capaz de fazer. Foi um ano de desmascarar a mim e aos outros, de ver o quanto de mim eu queria encontrar naquilo que não era eu e também de enxergar que eu estava bem aqui, debaixo do meu nariz e para fazer de mim o que bem me aprouvesse.
O ano termina com a exaustão de ter sido exaurido, consumado, usado e abusado, mastigado, engolido. É assim depois que nos entregamos sem medo, sem reserva e temos que aceitar devolução. Ninguém aprende incólume qual é sua própria medida, e ninguém aprende fácil a gostar dela, ainda mais quando a gente passa a não caber em qualquer cantinho, nem agradar a todo mundo.
Um grande beijo àqueles que me abriram os braços e abrigaram um muito de mim dentro de si, que deram guarida às minhas palavras, pretensas traduções dos meus sentimentos e riram os risos rasgados, vibraram as improváveis desmesuras e calaram lágrimas nas entrelinhas.
A todos vocês, anônimos, calados, incógnitos, assíduos leitores, comentaristas diários, amigos, obrigada por me fazerem tão bem ao andarem de mãos dadas comigo.
Hoje, no FOCANDO
Imagem de Cris Carriconde
CURTA EM 8 mm
Um dia ele acorda e finalmente enxerga a sua vida em 8mm, preto e branco. Toma café e percebe que tudo ali tem gosto de sobra, de vencido, de velho. O papel de parede que deveria ser decorado de flores, na verdade tem bolor; as portas estão carcomidas, infestadas de culpa; o telhado tem goteiras e grandes morcegos moram no sótão. Ele ouve as baratas esfregarem suas patas dentro da gaveta dos talheres de prata e o tecer das novas teias que se estendem pelo teto. No espelho, suas rugas lhe fazem pouco caso e lhe cospem na cara anos mastigados. Ele sabe que é hoje ou nunca mais e, a despeito dos rumores e desídias, dos comentários incrédulos dos móveis e do casaco que se nega a vir junto, sai pela porta e deixa a covardia amordaçada no banheiro.
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