30.06.2006
TERMINANTEMENTE PROIBIDO.
Tem bola mais fora do que falar mal (falar bem também não é das coisas mais elegantes do mundo) do desempenho sexual do namorado/marido pros amigos/conhecidos? Tá certo que esse recurso é comumente usado por moças que já cansaram de reclamar para o próprio cidadão e agora já estão prestando queixa inclusive ao bispo, mas raios, reclamação púbica só pode ter dois efeitos: a) humilhação com efeito brochante permanente ou b) humilhação com efeito “
dane-se, agora é que eu faço do jeito que eu quiser e pronto”.
É verdade que no mais das vezes isso acontece quando o cidadão em questão está lá contando vantagem em prosa e verso da virilidade invejável da qual é feliz portador, ou está insinuando, muitas vezes com todas as letras, o que faria preso com a Juliana Paes no elevador e a desgraçada da namorada, que não tem um orgasmo há três meses, num acesso de fúria descontrol resolve dizer: "-
Até parece!" ou "-
Não dá conta do que tem em casa, imagina se tercerizar." ou ainda
"- Nem me lembro quando foi a última vez".
Mesmo assim, minha filha, mesmo que ele peça pelamordedeus pra tomar uma beaba dessas do lado da orelha, resista. Conversar com o analista, com uma amiga, vá lá. Mas entregar BO pra torcida do Flamengo, definitivamente não. Assim, mimosas queridas, jamais, JAMAIS lancem mão deste expediente. Além de só piorar a situação, passa atestado de descompensação, infantilidade e histeria da sua parte. Chegue em casa e acerte as pontas, converse de pertinho e ponha o garoto a par da real situação periclitante ou mande ir procurar um elevador desocupado, mas essa roupa suja, lavar em público, nem pensar.
28.06.2006
O QUE VEM DEPOIS.
Toda a corte, a dança do pavão, o ritual de proximidades, gentilezas, sorrisos, mechas de cabelo, toques casuais, tudo o que precede a hora da verdade em que a gente diz que tá a fim, ou beija pela primeira vez, é muito gostoso, mas tem um quê teatral e ansioso, qualquer coisa de artificial e controlado, nervos, cálculos, premeditação. É fantástico em termos de adrenalina e é uma etapa divertida, sim.
Mas o que eu acho mais adorável em um relacionamento é quando isso tudo já passou, a intimidade vem se instalando e a gente pode confessar quais foram nossos medos, o que a gente pensou, que impressão teve enquanto não tinha certeza do que poderia acontecer. Sabe aquela hora em que a gente ri e diz: “- Olha, quando você perguntou que horas eram, eu achei que eu não tinha mais chance alguma”, ou “- Eu disfarcei e colei o chiclete embaixo do banco do carro” ou ainda “- Depois da primeira vez que conversamos, eu fiquei pensando naquilo por vários dias”.
Acho que, sim, pode-se nunca contar para o outro o que aconteceu realmente, o que havia por trás do personagem ensaiado, o que realmente passou pela cabeça, mas que grande oportunidade perdida de chegar muito mais perto, né?
20.06.2006
20 DE JUNHO, O DIA DA LIBERTAÇÃO.

Você não é a mulher Nova, nem a mulher Cláudia, nem a Cosmopolitan, nem a Marie Claire, nem a TPM, nem a Uma. Você não é nem a mulher Superinteressante, nem a Casa & Jardim, nem a Escola, nem a Ana Maria, nem a Contigo, muito menos a Caras. Você não é a mulher Arquitetura e Decoração, nem a Burda, nem a Festas & Eventos, nem a Vogue, nem a Elle. Da Playboy, Sexy e Trip não vamos nem falar, né ameeeega? Você não consegue trabalhar com tal dedicação a ponto de ser notada (promovida?), administrar a casa (ainda que com colaboração do marido, da faxineira, da mãe ou do divino espírito santo), estar com unhas, cabelos, depilação e os exames ginecológicos em dia, fazer exercícios, massagem, drenagem linfática, seguir a dieta da nutricionista e as recomendações da ortomolecular, não negligenciar nenhum dos amigos, comparecer aos eventos sociais, criar bem seus filhos (ou parar pra pensar seriamente em tê-los, um dia), correr três dias por semana, dar andamento ao seu projeto de aperfeiçoamento (pós, mestrado, doutorado, especialização ou cursinho de ikebana), aumentar o número de sessões com o analista, ter disposição, imaginação e tesão para ser a deusa do sexo com razoável regularidade, manter seu relacionamento com cumplicidade, diálogo, bom humor e góing góing góing, ter paciência com a família, fazer supermercado, mandar consertar o portão da garagem, buscar o aspirador no conserto, comprar ingressos pro teatro, ir ao teatro, ao cinema, ler mais de uma página e meia por dia, atualizar os seus CD’s, juntar dinheiro para as férias, conseguir férias, manter um mínimo de sanidade mental que te impeça de matar um vizinho, atualizar o blog, acompanhar os jogos da copa, ler jornais, passear com o cachorro, limpar a areia do gato, fazer jantarzinho gostosinho, trocar o óleo do carro. Você não consegue. Não. Muito bem. Cá entre nós, minha santa: NINGUÉM CONSEGUE. Faça as SUAS escolhas e mande o resto pra casa do car*lho.
09.06.2006
DOS NOSSOS ATOS SUBLIMINARES DE CADA DIA.
Faça o que fizer, saiba porque você está fazendo. Acho que é isso. Se você decide que vai pular de pára-quedas, saiba o que está querendo com isso. Mais adrenalina na sua vida? Realizar um sonho antigo? Correr risco desnecessário? Provar para o seu amigo que você é corajoso? Se é certo que um cachimbo às vezes é só um cachimbo, às vezes ele pode ser outra coisa completamente diferente. Quando você recrimina alguém por estar gastando demais, isso é zelo, é conselho de amigo, essa pessoa está fazendo o que você gostaria de fazer, ela lhe lembra alguém que faz isso reiteradamente e lhe prejudica ou você está com aquela dorzinha de cotovelo porque ela foi promovida e você não? Quando você fala mal de alguém, mesmo por
brincadeira, o que você quer é manifestar o que efetivamente lhe desagrada, quer agredir porque se sente inferior, ou quer descontar porque ela tem o que você não tem? Nessas horas a gente pode se olhar no espelho e enxergar um monstrinho beeeeeem feio, mas também pode achar feridas que precisam de cuidado para sarar, espinhos encravados que devem ser retirados, no devido tempo, com delicadeza, para que possam parar de incomodar, doer e atrapalhar. Nada como uma grande mancada ou uma grande maldade para nos mostrar o quanto humanos, imperfeitos e merecedores de tratamento a gente pode ser.
29.05.2006
DAS PÉROLAS NOSSAS DE CADA DIA.

Quanto mais só a gente é, mais só a gente fica, ou vice-versa, porque solidão é mesmo vice e mesmo versa. Não ganha nada e tá sempre ao inverso. Quanto mais a gente se enconcha, mais com cara de ostra vai ficando, mais retraído e ensimesmado. A gente vai desaprendendo a ser gente, gente de abraçar gente, de amar gente, de rir com gente, de se enternecer com gente, de aprender com gente, de entender gente, de enxergar gente. De tanto ficar só, a gente se convence de que não precisa de gente. Mas precisa. Porque solidão embrutece, porque solidão entristece, porque solidão cega e emburrece e enche a gente dos piores sentimentos que são a auto-suficiência e a certeza. Aí pronto, ninguém mais serve, ninguém mais vale a pena, ninguém mais está à altura do nosso isolamento e nossa arrogância, aí todo mundo é burro, todo mundo é ignorante, todo mundo é menos e ninguém sabe patavinas a nosso respeito. E lá, bem sozinhos dentro da nossa concha, a gente passa o tempo fazendo pérolas que nunca ninguém vai ver.
20.04.2006
Da série Republicação a Pedido - A VERDADE.
Sabe aquelas eternas dúvidas sobre se o Bofe está a fins ou não está a fins? Aquela coisa que dá vontade de ir à cartomante, jogar tarô, comprar bola de cristal? Aquilo de ligar pras amigas às quinze pra meia noite para pedir um auxílio na interpretação da resposta dele da mensagem que você recebeu pelo celular? Tudo isso é coisa do passado.
Nós, as Megeras Magérrimas, vamos ajudar a superar esse dilema do ele está ou não a fins.
1) Minha filha, se você abalou Bangu, abalou de cara. Ele não vai ter sido meio morno da primeira vez que vocês ficaram juntos, meia boca da segunda, para dois meses mais tarde ele descobrir que você é a mulé dos sonhos. Se não bagunçou o coreto de chinfra, never more. Próximo!
2) Ele disse que depois te liga? Se não ligar no máximo três dias depois, não liga mais e se ligar, é porque não achou nada melhor para fazer (ou comer). Homem que ficou realmente interessado, vai querer marcar território e LOGO, antes que algum gavião apareça e leve sua princesinha embora.
3) Ele disse que depois ELE te liga? Então não ligue. Ou ele está dizendo que ELE vai pensar no assunto, ou está dizendo que ELE dá as cartas. Se você quiser ligar, tudo bem, mas aí não dá para saber do real interesse do rapaz e é possível que ele entre numas de “já que você insiste...” Tudo bem, se pra você isso pouco importa, o negócio é aproveitar e fim.
4) Se ele disse para VOCÊ ligar e você estiver a fins, ligue. Ele tomou essa atitude porque não ficou convicto de que você está interessada. Ligue e pronto.
5) Se ele não ligou não é porque você deu, nem porque você não deu. É porque não rolou o clima certo. Pelo menos pra ele. Desencane, parta para outra, chame a senha seguinte. Nada pior que uma mulher correndo atrás de bofe desinteressado, mandando mensagenzinha besta pro celular, arrumando desculpa para ligar, numa coisa encalhada pelamordedeus-me-chama-pra-sair. Assim como a gente ODEIA bofe uó pegajoso, que fica na cara que está tentando chamar atenção mandando mensagenzinha besta, e-mailzinho triste, ligando com desculpazinha esfarrapada, eles também percebem essas manobras idiotas. Se manca.
6) Se ele estiver realmente interessado, vai deixar bem claro. Se ele for meio que meio, mais pra lá que pra cá, ficar se fazendo, é porque tá te cozinhando até arrumar coisa melhor. Isso de mandar um mail na vida outro na morte, te incluir em lista de piadinha, vez por outra mandar mensagem no teu celular pra saber como você está, é furada, é só pra te manter orbitando no harém de Vossa Excelência. Nenhum homem que está realmente a fins faz isso. Homem a fins convida para jantar, pra ir ao cinema, para sair. Manda o morninho seguir. Dá um vale transporte pro garoto e larga no ponto de ônibus. Dispensa.
7) Se ele ligar e você estiver realmente a fim, tope o programa. Fazer joguinho de cena é de uma imbecilidade atroz. Se ele é do tipo caçador que precisa de resistência e emoção, esconde-esconde, momentos de tensão, que vá fazer safári. Seja sincera, fique feliz, tope e vá linda, bela, cheirosa e capriche no modelão.
OBS.: Aos defensores do vernáculo de plantão, aviso que a expressão "a fins" é de minha própria e intransferível autoria, trata-se de neologismo apoplético e eu assumo total responsabilidade pelo atentado contra a língua pátria.
10.03.2006
PEDREIRA.
Vi a notícia nas
Fridas, que por sua vez receberam da
Musa Escarlate:
Ex-noivo impede britânica de usar embrião congelado
Do Independent, republicado pela Folha de S. Paulo
A Corte Européia de Direitos Humanos decidiu que uma mulher britânica que ficou infértil depois de submetida a um tratamento contra câncer não poderá utilizar seus embriões congelados para ter um bebê sem a concordância de seu ex-noivo.
Natallie Evans e seu ex-parceiro, Howard Johnston, usaram suas células sexuais para criar seis embriões durante tratamento de fertilização, mas, após a separação deles, Johnston retirou seu consentimento para que os embriões fossem utilizados.
Evans, 35, diz que os embriões representam sua única chance de ter um filho próprio e que o fato de lhe ser negada a permissão para usá-los constitui uma violação de seus direitos humanos.
Mas ontem a Corte Européia manteve uma decisão anterior da Alta Corte, segundo a qual o consentimento contínuo tanto do homem quanto da mulher é necessário durante todo o decorrer dos procedimentos de fertilidade.
(...)
Ontem, ela fez um apelo emocionado a Johnston: "Howard pode achar que já é tarde para mudar de idéia, mas não é. Por favor, Howard, pense sobre isso. Pense no que você está fazendo comigo". Ela acrescentou: "Já tentei todas as maneiras possíveis de falar com ele, mas nada funcionou. É claro que não estou dizendo que ele não tem direitos, mas ele sabia no que estava se metendo quando iniciamos o tratamento para fertilização "in vitro". Ele optou por se tornar pai no dia em que criamos os embriões. Foi escolha dele ser pai." Johnston afirmou que não pretende mudar de idéia.
(...)
Especialistas em fertilidade saudaram a decisão, dizendo que ela defende os direitos dos homens de não se tornarem pais de filhos que não desejam.
Johnston afirmou não ter dúvidas de que a apelação legal de sua ex-parceira vai fracassar: "O fator-chave, para mim, foi poder decidir se e quando eu crio uma família. Tudo se resume realmente a isso".
Eu arrisco o apedrejamento, eu sei, mas vou falar sobre isso.
Sim, o cidadão tem direito a não ser pai, ponto, como uma mulher tem o direito a não ser mãe. Não acho que seria justo um homem resolver ter filhos com o meu embrião sem que eu o autorizasse. Sim, há o aspecto humanitário, sim, a mulher essa não vai poder ter filhos de outro jeito e tals, mas criança tem pai e mãe. Não é algo que se produza sozinho, pelo menos enquanto a técnica Dolly -
Faça você com você mesmo, não se dissemina e populariza.
Daí então que eu não acho aceitável engravidar por livre e isolada vontade e dane-se o que o cidadão pai ou cidadã mãe da criança pense, sinta ou queira, uma vez que ser pai ou mãe é uma responsabilidade, digamos, extrema e vitalícia. Também acho que o cidadão que não deseje ter filhos pode providenciar evitá-los por sua própria conta, mas também acho que isso pode ser acordado entre o casal e existir um pacto de confiança mútua. Não queremos? Não. Quem providencia a anticoncepção, eu ou você? E acho uma tremenda sacanagem descumprir o acordo. Imagine você, amiga de fé, irmã camarada, confrontada com a seguinte situação: um belo dia, seu namorado, marido, bedmate chega e diz que está grávido, que está feliz e que, mesmo se você não quiser, ele vai ter o bebê e você vai ser mãe. Que legal, né?
Se, todavia, acordo de quem providencia a anticoncepção não houve, bem, cada um cuida dos seus gametas.
Acho que, sim, acontece e se há gravidez não planejada POR AMBOS (e não me venham argumentar que quem vai pra cama, vai disposto a procriar subjetivamente, please), tanto ele quanto ela tem todo o direito de não querer ter o bebê e acho que devem discutir se levarão a gravidez adiante ou não e que devem decidir isso juntos. Acho também que no final das contas e frigir dos ovos, por motivos óbvios, quem decide é a mãe. Mas acho que se o pai tiver concluído que não quer mesmo a criança e a mãe decidir tê-la
no matter what, não há nada de monstruoso, desumano ou filhodaputa da parte do cidadão que vai ser pai à revelia da sua vontade restringir-se a colaborar apenas financeiramente. Não se ama por imposição, nem se pode exigir que alguém assuma uma responsabilidade dessas com felicidade e contentamento quando não se decidiu por isso.
Agora façam fila e, por favor, paralelepípedos primeiro.
21.02.2006
I want to trip inside your head...
A primeira vez que Bono conversou com Keith Richards foi num studio em New York. keith estava ao piano tocando alguns blues no intervalo da gravação e o irlandes ficou fascinado com aquelas canções. Então Keith pediu que ele sentasse e tocasse alguma de suas composições. Bono ficou apavorado: primeiro, se sentiu nu sem The Edge e, segundo, não sabia tocar piano, nem conhecia blues. keith caiu na gargalhada e mandou-o sentar-se mesmo assim, para começar a aprender. Dois dias depois, também com a ajuda de Ron Wood, Bono Vox compôs seu primeiro rock-blues, Silver and Gold. Mais tarde tocou com B. B. King.
Talvez tenha chegado a hora dos Rolling Stones começarem a pensar em fazer shows menores, um pouco intimistas. Eles não precisam mais provar nada a ninguém e é duro vê-los num esforço para manter o fôlego com dignidade durante um mega show. Se bem que, o alter-ego de Mike Jaeger pode se chamar Maria Callas...
23.01.2006
DAS HESITAÇÕES NOSSAS DE CADA DIA.
Desconfio dos absolutismos, dos fundamentalismos, dos essencialismos e dos niilismos. O que é tudo ou nada sempre me cheira mal. O que nunca dá lugar a outra interpretação, o que é assim e pronto, só desse jeito, os sempres e os nuncas, muito mais quando não é o teu que está na reta, não é a tua cabeça a prêmio, não é no teu que tá ardendo. Muito fácil assistir de arquibancada e com a cuca fresca, os dados postos e a devida reflexão que o distanciamento permite, e se arvorar de dedinho em riste de senhor da razão e da decência. “
Eu nunca faria isso”, “eu jamais faria aquilo”, “se fosse eu...”. Só que não é, meu nego, e quando não é a tua batata que tá assando, a coisa é com-ple-ta-men-te diferente. E mais. Também não me agradam as pessoas que antes de viver qualquer situação têm certeza de como vão se sair, o que vão fazer, de que forma vão agir. Ai daquele que é escravo das convicções absolutas, que é refém das idéias sólidas e inabaláveis, que é escravizado pelo conceito de tudo que viu e viveu até ali, por mais lindos, corretos, decentes, justos e bem intencionados que sejam. Mil chances a mais de tomar uma lambada nos cornos e desnortear pra valer. Veja lá, abra os olhos, reflita. Não seja petulante achando que consegue se colocar no lugar do outro para julgá-lo ou decidir o melhor a fazer; ninguém consegue. Não seja arrogante a ponto de achar que sabe exatamente quem você é; ninguém sabe. O benefício da dúvida, quanto aos outros e quanto a si mesmo, muitas vezes, é o que de melhor se dispõe.
18.01.2006
INCOMODADA FICAVA A SUA AVÓ.
Nem todo mundo gosta de sexo. É verdade, por mais estranho que isso possa parecer para alguns. Há quem prefira discussões filosóficas, poesia, críquete, botânica, boxe. Enfim. Como todo mundo sabe, gosto não se discute, se lamenta. O negócio é procurar a sua turma. Óquei. Passe as tardes enfiando bolinhas com uma marreta em mini traves de metal, discuta Heidegger, organize saraus, cultive orquídeas, begônias, buganvílias, vá descarregar a energia na mandíbula de alguém. Acho isso tudo muito lindo, se é isso mesmo que você curte.
Mas eu venho observando um fenômeno intrigante. Alguns homens, que não são muito apreciadores do esporte horizontal em dupla, parecem se sentir constrangidos a dizer que gostam, adoram, fazem muuuuuito. Até aí, algo compreensível nos tempos atuais em que todo mundo parece ser obrigado a ser uma máquina de sexo, um poço de libido, saúde, disposição, dinheiro e beleza. Mas o que eu acho mais curioso são as mulheres que, ainda hoje em dia, fazem questão de alardear aos quatro ventos que fazem sexo por concessão, por obrigação, totalmente contrariadas. E vejam lá, isso é muito mais grave que o caso masculino, porque há, realmente as que não gostam e aí, pronto, tudo bem, cada uma com o seu cada uma.

O triste são essas criaturinhas que seguiram mimetizando um comportamento secular onde as mulheres não podiam gostar de sexo, não podiam ter prazer, não podiam gostar, se refestelar e revirar os olhinhos, já que isso não era coisa pra mulher decente. Essas mulheres, nascidas e criadas já quase na era de Aquário, nem pararam para pensar se sexo, afinal, pode ser bom, muito menos se propuseram a achar a sua maneira de ter prazer. Falam sempre de sexo como se isso pra elas fosse abrir uma exceção, prestar um favor, submeter-se a um sacrifício necessário em prol do troglodita de baixos instintos com quem troca afagos e divide a conta do restaurante.
Estou cansada de ver por aí mocinhas que sugerem que o namorado/marido vive insistindo e que ela,
ah, que coisa, despistam o que dá, mas uma hora ou outra, que fazer,
não tem jeito, a gente se presta a isso. Oras, minha filhotinhas, já não seria hora de parar de agir como a sua tetravó, já que o mundo é outro e pela rua não circulam mais carruagens, sexo não é prática restrita aos bordéis, não há mais lençóis com furo no meio e, olhe só, algumas mulheres hoje em dia até têm orgasmo? Quem sabe não é hora de parar de repetir o discurso das recatadas mães de família e esposas dedicadas que não podiam fazer sexo e gostar de fazer sexo sob pena de serem confundidas com prostitutas? Quem sabe pensar se, afinal, pode ser bom ou não, se gosta ou não gosta, como gosta, onde gosta e quando gosta? Saber exatamente quem se é, do que se gosta ou não, sem ser precisar obedecer padrão ditado algum, mais que qualquer outra atitude, é a verdadeira modernidade.
13.01.2006
A MENINA QUE NASCEU PRA SER MAIOR.
A minha irmã Paula nunca foi Paula. Ela é Paulinha e, Paulinha por si só já é uma redundância. Paula significa pequena, e Paulinha então... deve ser muito menor. E é mesmo. Paulinha é Paulinha por que é a caçula, o nenê, foi a rapinha do tacho quando os Megeros pais supostamente já teriam fechado a fábrica. É miudinha, pouco mais de metro e meio de gente.
Fomos mais mãe e filha do que propriamente irmãs por muito tempo, até que eu precisei crescer e foi a pequenina Paula que assumiu de minha irmã mais velha. Me disse coisas duríssimas e verdadeiras que ninguém mais no mundo teria coragem, enquanto ficava por perto pra segurar as pontas. Essa, aliás, é sua grande qualidade: meter certeiramente o dedo na ferida com a maior lealdade. Para quem não consegue nem saber onde está o furo da bala, é uma grande ajuda; claro que para os hipócritas, os mesquinhos, os mentirosos, os dissimulados, ela é o terror. Foi aí então que pude ver a menina Paula, agora a minha pequena grande irmã, se tornando mulher, sofrendo, sendo pessimista e rabugenta, exigente, temperando meiguice e dureza, decidindo o que queria da vida. Tanto foi que achou o amor de verdade, o Marcus, totalmente apaixonado por ela.
Nesse tempo todo, foi uma grande alegria descobrir nela coisas minhas e em mim coisas dela. Temos vários comportamentos idênticos, as mesmas impressões, manias gêmeas, medos parecidos. E também diferenças, claro, felizmente. Certa vez, quando comentaram sobre nossa semelhança física, ela disse que era mais inteligente, mais querida, mais bonita e – vantagem – na versão compacta. Cada vez tenho mais certeza disso, cada vez tenho mais orgulho dela, das escolhas certas que ela faz de primeira, das atitudes duras que ela tem coragem de tomar sem piscar, dos erros que ela não comete, da segurança embasbacante que a grande Paula parece sempre ter tido e que me dão a certeza de que não preciso temer por ela. Ela é mesmo a minha irmãzona.
Amanhã ela casa na mesma igreja que meus pais casaram, usando o vestido de noiva que foi da minha mãe. Entra até a metade da igreja com o vô Paulo, depois segue com o pai, ao som de um trio de cordas. Eu e Facelo somos padrinhos. Escolheu a minha música preferida (que também é dela).
Vai ser feliz a Paulinha, tenho certeza. E vai continuar sendo cada vez maior.