11.07.2006
PORQUE ROSA PODE SER UM NOME OU UM MOTIVO.
Quinto Motivo da Rosa
Antes do teu olhar, não era,
nem será depois, - primavera.
Pois vivemos do que perdura,
não do que fomos. Desse acaso
do que foi visto e amado:- o prazo
do Criador na criatura...
Não sou eu, mas sim o perfume
que em ti me conserva e resume
o resto, que as horas consomem.
Mas não chores, que no meu dia,
há mais sonho e sabedoria
que nos vagos séculos do homem.
(Cecília Meireles)
10.07.2006
MINHA MULHER.
Hoje te canto e depois no pó que hei de ser
Te cantarei de novo. E tantas vidas terei
Quantas me darás para o meu rosto outra vez amanhecer
Tentando te buscar. Porque vives de mim, Sem Nome,
Sutilíssimo amado, relincho do infinito e vivo
Porque sei de ti a tua fome, tua noite de ferrugem
Teu pasto que é o meu verso orvalhado de tintas
E de um verde negro teu casco e os areais
Onde me pisas fundo. Hoje te canto
E depois emudeço se te alcanço. E juntos
Vamos tingir o espaço. De luzes. De Sangue.
De escarlate.
Hilda Hilst
Não lembro quem, nem o que, não me lembro o porquê, sei que um dia abri um livro dela e li a poesia mais arrebatadora e definitiva que já tinha lido e que iria algum dia ler. Lembro que engasguei, reli, sufoquei, abri a boca, passei a mão sobre o papel como se aquilo ali fosse possível de absorver pelos poros. Pudesse eu fazer um livro virar chuva, teria me encharcado dos versos dela e brincado nas poças, e bebido, bebido sim, na concha das mãos goles daquelas frases elegantes e puras, como uma água que desce do céu, límpida, cristalina, celeste e fecunda. Li aqueles poemas com olhos e boca e pele e suor e sexo e ânsia, cheia de esgares e espantos, ajoelhada de alma e espírito, diante daquela santa profana e louca, daquela mulher com dentes e mãos e vulva, daquela mulher cheia de raiva e desejo e amor e morte, que falava do tempo e da vida com sangue na língua e agulhas escondidas nas mangas. Li aquilo sabendo que estava diante da poesia que eu queria para mim e a odiei um tanto e quis ser sua filha, sua amante, sua amiga e quis me emprenhar dela para que quando eu pensasse no sentir, sentisse como ela.
05.07.2006
HANNIE.
A ciascun’alma presa, e gentil core,
nel cui cospetto ven lo dir presente,
in ciò che mi rescrivan suo parvente
salute in lor segnor, cioè Amore.
Già eran quasi che atterzate l’ore
del tempo che onne stella n’è lucente,
quando m’apparve Amor subitamente
cui essenza membrar mi dà orrore.
Allegro mi sembrava Amor tenendo
meo core in mano, e ne le braccia avea
madonna involta in un drappo dormendo.
Poi la svegliava, e d’esto core ardendo
lei paventosa umilmente pascea:
appresso gir lo ne vedea piangendo.
[Dante Alighieri, Vita Nuova, chapter 3]
04.07.2006
AS MULHERES OCAS.
Headpiece filled with siraw
T.S. Eliot, "The Hollow Men"
Nós somos as inorgânicas
Frias estátuas de talco
Com hálito de champagne
E pernas de salto alto
Nossa pele fluorescente
É doce e refrigerada
E em nossa conversa ausente
Tudo não quer dizer nada.
Nós somos as longilíneas
Lentas madonas de boate
Iluminamos as pistas
Com nossos rostos de opala.
Vamos em câmara lenta
Sem sorrir demasiado
E olhamos como sem ver
Com nossos olhos cromados.
Nós somos as sonolentas
Monjas do tédio inconsútil
Em nosso escuro convento
A ordem manda ser fútil
Fomos alunas bilíngües
De "Sacre-Coeur" e "Sion"
Mas adorar, só adoramos
A imagem do deus Mamon.
Nós somos as grã-funestas
Filhas do Ouro com a Miséria
O gênio nos enfastia
E a estupidez nos diverte.
Amamos a vida fria
E tudo o que nos espelha
Na asséptica companhia
Dos nossos machos-de-abelha.
Nós somos as bailarinas
Pressagas do cataclismo
Dançando a dança da moda
Na corda bamba do abismo.
Mas nada nos incomoda
De vez que há sempre quem paga
O luxo de entrar na roda
Em Arpels ou Balenciaga.
Nós somos as grã-funestas
As onézimas letais
Dormimos a nossa sesta
Em ataúdes de cristal
E só tiramos do rosto
Nossa máscara de cal
Para o drinque do sol posto
Com o cronista social.
(Vinicius de Moraes,
in Para viver um grande amor)
03.07.2006
DAS EXPLICAÇÕES QUE O ACASO NOS DÁ.
somewhere i have never travelled, gladly beyond
any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which i cannot touch because they are too near
your slightest look will easily unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously)her first rose
or if your wish be to close me, i and
my life will shut very beautifully ,suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;
nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing
(i do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses )
nobody, not even the rain, has such small hands
E. E. Cummings
HAI KAI A PROPÓSITO.
Coração na boca
Cala-te e me beija
Diálogo pulsante.
29.06.2006
AS HISTÓRIAS DE NÓS DOIS.
Virgilio Amorim
Passaram poucas horas juntos, com a sensação de que seu encontro era mais que uma conspiração de acasos. Não puderam entristecer-se, felizes que estavam com aquela brecha de vida que desenrolava uma fita, que tecia um urdidura rara e frágil. Falaram da vida e do mundo aproveitando cada instante, sem reservas ou medo, sem querer estar em nenhum outro lugar além dali mesmo, ao lado, desfrutando os minutos com a entrega absoluta da iminente finitude. Mereceram esquecer-se da vida que existia fora daquelas circunstâncias...
28.06.2006
HAI KAI DISFARÇADO.
Quero tua boca
Às voltas da uva
Ilusão erótica.
23.06.2006
ECOS DAS TUAS MÃOS.
12.06.2006
DA DIFÍCIL ARTE.
O amor não é fácil, não, é complicado pra chuchu. Ele é exigente e descontente e fominha, incansável e resistente, renitente e impaciente e quando a gente menos espera, tem crise existencial e se pára a esperniar, a gritar e a fazer manha. O amor é detalhista, minucioso, metódico, cri-cri, perfeccionista, crítico, perspicaz, inquieto, intranqüilo, tem um olho no padre e o outro na missa, gosta de tudo muito bem fundamentado e quando a gente acha que está desatento, na verdade está é procurando lente de aumento para poder ver tim-tim por tim-tim. O amor é cabeça dura, é teimoso, obstinado, genial, obcecado, obsessivo, insaciável, implacável e extremamente temperamental. O amor é pior que a Bárbara Heliodora, o Paulo Francis e o Diogo Mainardi juntos. O amor não aceita desculpa furada, ainda que pareça que sim. No fundo ele está só colocando na sua conta de débitos a resgatar, cobra juros e correção monetária, não perdoa dívidas e resgata à vista, sem choro nem vela, doa a quem doer. O amor é duro na queda, invencível, provocador, desafiante, irritante, não dá refresco. O amor quer saber é de amor, que é o que interessa, o resto é só o resto, te vira. O amor não manda recado, diz na cara, paga pra ver, cobra dobrado, não leva desaforo pra casa e se a gente bobear, babaus. O amor é tático, métrico, exato, pernóstico, complexo, mas nenhuma das leis ou métodos que eu ou você aprendemos na escola se aplica a ele. O amor é um caso sério, muito particular, uma raridade e, por isso, cada dia se torna mais difícil achá-lo e lidar com ele de forma a mantê-lo longe da extinção. Se você tem um, dê-se por satisfeito e esteja ciente do privilégio que é ele ter dado o ar da graça, ora veja, logo pra você.
Trate-o como se fosse a coisa mais importante do mundo, até porque, é mesmo.
PRA HOJE, MÚSICA E LUGARES.
I've been searching a long time
For someone exactly like you
I've been travelling all around the world
Waiting for you to come through.
Someone like you makes it
All worth while
Someone like you keeps
Me satisfied.
Someone exactly
Like you.
I've been travellin' a hard road
Lookin' for someone exactly like you
I've been carryin' my heavy load
Waiting for the light to come
Shining through.
Someone like you makes it
All worth while
Someone like you keeps
Me satisfied. Someone exactly
Like you.
I've been doin' some soul searching
To find out where you're at
I've been up and down the highway
In all kinds of foreign lands
I've been all around the world
Marching to the beat of a different
Drum.
But just lately I have
Realized
The best is yet to come.
(Van Morrison, Someone Like You)
07.06.2006
HAI KAI DE BÊBADO.
I.
Meu medo cabe
Inteiro em um dedal
Se dobra e dura.
II.
No calendário
Teu nome numa data
Previsão do tempo.
III.
Solidão
Só me dão
Bom dia.
IV.
Amor perfeito
Qualidades múltiplas,
Defeitos especiais.
V.
Absoluta nudez
Teu olho me olha
Por dentro.
VI.
Tua medida
Estilhaça a minha
Mosaico novo.
05.06.2006
AS COISAS PERDIDAS.
25.05.2006
OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(Carlos Drummond de Andrade)
24.05.2006
FRIO.