
Quanto mais só a gente é, mais só a gente fica, ou vice-versa, porque solidão é mesmo vice e mesmo versa. Não ganha nada e tá sempre ao inverso. Quanto mais a gente se enconcha, mais com cara de ostra vai ficando, mais retraído e ensimesmado. A gente vai desaprendendo a ser gente, gente de abraçar gente, de amar gente, de rir com gente, de se enternecer com gente, de aprender com gente, de entender gente, de enxergar gente. De tanto ficar só, a gente se convence de que não precisa de gente. Mas precisa. Porque solidão embrutece, porque solidão entristece, porque solidão cega e emburrece e enche a gente dos piores sentimentos que são a auto-suficiência e a certeza. Aí pronto, ninguém mais serve, ninguém mais vale a pena, ninguém mais está à altura do nosso isolamento e nossa arrogância, aí todo mundo é burro, todo mundo é ignorante, todo mundo é menos e ninguém sabe patavinas a nosso respeito. E lá, bem sozinhos dentro da nossa concha, a gente passa o tempo fazendo pérolas que nunca ninguém vai ver.