23.01.2006
DAS HESITAÇÕES NOSSAS DE CADA DIA.
Desconfio dos absolutismos, dos fundamentalismos, dos essencialismos e dos niilismos. O que é tudo ou nada sempre me cheira mal. O que nunca dá lugar a outra interpretação, o que é assim e pronto, só desse jeito, os sempres e os nuncas, muito mais quando não é o teu que está na reta, não é a tua cabeça a prêmio, não é no teu que tá ardendo. Muito fácil assistir de arquibancada e com a cuca fresca, os dados postos e a devida reflexão que o distanciamento permite, e se arvorar de dedinho em riste de senhor da razão e da decência. “
Eu nunca faria isso”, “eu jamais faria aquilo”, “se fosse eu...”. Só que não é, meu nego, e quando não é a tua batata que tá assando, a coisa é com-ple-ta-men-te diferente. E mais. Também não me agradam as pessoas que antes de viver qualquer situação têm certeza de como vão se sair, o que vão fazer, de que forma vão agir. Ai daquele que é escravo das convicções absolutas, que é refém das idéias sólidas e inabaláveis, que é escravizado pelo conceito de tudo que viu e viveu até ali, por mais lindos, corretos, decentes, justos e bem intencionados que sejam. Mil chances a mais de tomar uma lambada nos cornos e desnortear pra valer. Veja lá, abra os olhos, reflita. Não seja petulante achando que consegue se colocar no lugar do outro para julgá-lo ou decidir o melhor a fazer; ninguém consegue. Não seja arrogante a ponto de achar que sabe exatamente quem você é; ninguém sabe. O benefício da dúvida, quanto aos outros e quanto a si mesmo, muitas vezes, é o que de melhor se dispõe.
18.01.2006
INCOMODADA FICAVA A SUA AVÓ.
Nem todo mundo gosta de sexo. É verdade, por mais estranho que isso possa parecer para alguns. Há quem prefira discussões filosóficas, poesia, críquete, botânica, boxe. Enfim. Como todo mundo sabe, gosto não se discute, se lamenta. O negócio é procurar a sua turma. Óquei. Passe as tardes enfiando bolinhas com uma marreta em mini traves de metal, discuta Heidegger, organize saraus, cultive orquídeas, begônias, buganvílias, vá descarregar a energia na mandíbula de alguém. Acho isso tudo muito lindo, se é isso mesmo que você curte.
Mas eu venho observando um fenômeno intrigante. Alguns homens, que não são muito apreciadores do esporte horizontal em dupla, parecem se sentir constrangidos a dizer que gostam, adoram, fazem muuuuuito. Até aí, algo compreensível nos tempos atuais em que todo mundo parece ser obrigado a ser uma máquina de sexo, um poço de libido, saúde, disposição, dinheiro e beleza. Mas o que eu acho mais curioso são as mulheres que, ainda hoje em dia, fazem questão de alardear aos quatro ventos que fazem sexo por concessão, por obrigação, totalmente contrariadas. E vejam lá, isso é muito mais grave que o caso masculino, porque há, realmente as que não gostam e aí, pronto, tudo bem, cada uma com o seu cada uma.

O triste são essas criaturinhas que seguiram mimetizando um comportamento secular onde as mulheres não podiam gostar de sexo, não podiam ter prazer, não podiam gostar, se refestelar e revirar os olhinhos, já que isso não era coisa pra mulher decente. Essas mulheres, nascidas e criadas já quase na era de Aquário, nem pararam para pensar se sexo, afinal, pode ser bom, muito menos se propuseram a achar a sua maneira de ter prazer. Falam sempre de sexo como se isso pra elas fosse abrir uma exceção, prestar um favor, submeter-se a um sacrifício necessário em prol do troglodita de baixos instintos com quem troca afagos e divide a conta do restaurante.
Estou cansada de ver por aí mocinhas que sugerem que o namorado/marido vive insistindo e que ela,
ah, que coisa, despistam o que dá, mas uma hora ou outra, que fazer,
não tem jeito, a gente se presta a isso. Oras, minha filhotinhas, já não seria hora de parar de agir como a sua tetravó, já que o mundo é outro e pela rua não circulam mais carruagens, sexo não é prática restrita aos bordéis, não há mais lençóis com furo no meio e, olhe só, algumas mulheres hoje em dia até têm orgasmo? Quem sabe não é hora de parar de repetir o discurso das recatadas mães de família e esposas dedicadas que não podiam fazer sexo e gostar de fazer sexo sob pena de serem confundidas com prostitutas? Quem sabe pensar se, afinal, pode ser bom ou não, se gosta ou não gosta, como gosta, onde gosta e quando gosta? Saber exatamente quem se é, do que se gosta ou não, sem ser precisar obedecer padrão ditado algum, mais que qualquer outra atitude, é a verdadeira modernidade.
13.01.2006
A MENINA QUE NASCEU PRA SER MAIOR.
A minha irmã Paula nunca foi Paula. Ela é Paulinha e, Paulinha por si só já é uma redundância. Paula significa pequena, e Paulinha então... deve ser muito menor. E é mesmo. Paulinha é Paulinha por que é a caçula, o nenê, foi a rapinha do tacho quando os Megeros pais supostamente já teriam fechado a fábrica. É miudinha, pouco mais de metro e meio de gente.
Fomos mais mãe e filha do que propriamente irmãs por muito tempo, até que eu precisei crescer e foi a pequenina Paula que assumiu de minha irmã mais velha. Me disse coisas duríssimas e verdadeiras que ninguém mais no mundo teria coragem, enquanto ficava por perto pra segurar as pontas. Essa, aliás, é sua grande qualidade: meter certeiramente o dedo na ferida com a maior lealdade. Para quem não consegue nem saber onde está o furo da bala, é uma grande ajuda; claro que para os hipócritas, os mesquinhos, os mentirosos, os dissimulados, ela é o terror. Foi aí então que pude ver a menina Paula, agora a minha pequena grande irmã, se tornando mulher, sofrendo, sendo pessimista e rabugenta, exigente, temperando meiguice e dureza, decidindo o que queria da vida. Tanto foi que achou o amor de verdade, o Marcus, totalmente apaixonado por ela.
Nesse tempo todo, foi uma grande alegria descobrir nela coisas minhas e em mim coisas dela. Temos vários comportamentos idênticos, as mesmas impressões, manias gêmeas, medos parecidos. E também diferenças, claro, felizmente. Certa vez, quando comentaram sobre nossa semelhança física, ela disse que era mais inteligente, mais querida, mais bonita e – vantagem – na versão compacta. Cada vez tenho mais certeza disso, cada vez tenho mais orgulho dela, das escolhas certas que ela faz de primeira, das atitudes duras que ela tem coragem de tomar sem piscar, dos erros que ela não comete, da segurança embasbacante que a grande Paula parece sempre ter tido e que me dão a certeza de que não preciso temer por ela. Ela é mesmo a minha irmãzona.
Amanhã ela casa na mesma igreja que meus pais casaram, usando o vestido de noiva que foi da minha mãe. Entra até a metade da igreja com o vô Paulo, depois segue com o pai, ao som de um trio de cordas. Eu e Facelo somos padrinhos. Escolheu a minha música preferida (que também é dela).
Vai ser feliz a Paulinha, tenho certeza. E vai continuar sendo cada vez maior.